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Mãe, jornalista, e uma das responsáveis pela denúncia de Roger Abdelmassih: um papo com Ivandra Previdi

Ela foi uma das primeiras jornalistas a apurar os casos de denúncia envolvendo o ex-médico Abdelmassih. Uma entrevista com Ivandra Previdi

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 25/08/2021, às 16h54 - Atualizado em 08/09/2021, às 14h46

A jornalista Ivandra Previdi conversa com o Papo de Mãe sobre carreira, violência contra mulheres e maternidades
A jornalista Ivandra Previdi conversa com o Papo de Mãe sobre carreira, violência contra mulheres e maternidades

O ano era 2007 quando a jornalista Ivandra Previdi, com seus 41 anos, decidiu se aprofundar no tenebroso caso de denúncia envolvendo o então médico de reprodução assistida Roger Abdelmassih. "Ele era um cara muito badalado. Quando eu entrei na Globo no início dos anos 1990, já existiam alguns boatos e conversas sobre ele", conta a profissional.

Nos bastidores das reportagens investigativas da emissora de televisão, Ivandra conhecia a fama de "arrogante" e "insinuador" de Abdelmassih, mas foi naquele ano que surgiu a primeira denúncia de uma mulher que havia sido abusada sexualmente pelo então médico, que brincava com o sonho dos pacientes de serem pais e mães.

"Nessa época ninguém falava sobre direitos das mulheres e ele era considerado um Deus cheio de dinheiro. Mas no final das contas eu ouvi o depoimento dela [primeira denúncia] e fui atrás de outras. Eu consegui cerca de seis", afirma a jornalista, que além de mulher e profissional, já era mãe de duas meninas, Natalia e Carolina, atualmente com 27 e 19 anos, respectivamente.

As mulheres tinham muito medo, medo de tudo. Medo do marido, da família, da condenação social. Se você for ver, isso faz 15 anos, em 15 anos as coisas mudam",

Empenhada em contar a história, Ivandra procurou a ajuda de um promotor de Justiça, que acabou abrindo uma investigação. Após uma tentativa de denúncia no Ministério Público, a primeira vítima a expor o abuso do médico decidiu abrir um inquérito policial contra Abdelmassih, depois disso, o caso veio à tona como uma avalanche. 

Ivandra
Ivandra Previdi começou no jornalismo ao 18 anos, na Universidade Federal de Santa Catarina. Aos 21, depois de se formar, ela se deu conta que teria que deixar Florianópolis se quisesse crescer na carreira. Quando chegou em São Paulo, ela conseguiu  uma oportunidade na TV Cultura. (Foto: Arquivo Pessoal)

Após a história sair na mídia, como previsto, mais mulheres apareceram na delegacia para dar queixa contra o médico. "Elas perceberam que não estavam sozinhas. O negócio começou a ganhar força e ele foi denunciado pelo MP, até ser condenado", conta Ivandra. Em 2011 o Conselho Reginal de Medicina de São Paulo finalmente cassou o registro profissional de Roger Abdelmassih. Naquele ano, o ex-médico virou criminoso fugitivo procurado pela polícia, mas em 2014 ele foi encontrado no Paraguai e preso. Ele foi condenado a mais de 173 anos de prisão pelo estupro de pacientes.

Em paralelo a esse momento, a jornalista decidiu se debruçar nos estudos acadêmicos enquanto estava fora das redações de jornalismo. "Depois de 20 anos na TV Globo eu saí e fui trabalhar em um programa de carros, o Auto-Esporte, que é exibido pela emissora, mas realizado por uma produtora. Nesse caminho eu queria aproveitar meu tempo, já que tinha uma flexibilidade maior. Fui fazer mestrado", explica.

Com toda sua contribuição para o caso de Abdelmassih, Ivandra usou a história como tema para dissertação do mestrado em 2016 na PUC-SP. "A televisão e as vítimas: A rede de silêncio que acobertou crimes sexuais" foi o título do trabalho de pesquisa da jornalista. 

Ainda que o caso já tivesse sido dado como resolvido, o olhar investigativo de Ivandra Previdi não se aquietou. Permanecia um ponto de interrogação gigante em sua mente: afinal de contas, quais eram as procedências dos bebês gerados na clínica de Abdelmassih? E como esses bebês foram concebidos?

Foi quando surgiu a vontade de realizar um documentário sobre o assunto, que é bastante polêmico e delicado. "Eu falei: 'bom, a gente pode tentar esmiuçar essa questão. Nem todo mundo tem certeza que é filho do pai e da mãe, como ele diz que é. A gente nunca se debruçou sobre essa questão genética, até porque o objeto do processo eram os ataques sexuais dele." 

Dessa forma o documentário "DNA Abdelmassih" nasceu, no entanto com muito esforço e investigação, já que a busca pelos personagens dispostos a contar suas histórias foi no mínimo difícil, segundo relata a jornalista. Com direção de Luiz Claudio Latgé, produção da República Pureza Filmes e coprodução Globo Filmes e GloboNews, o produto foi lançado somente em 2020.

"Todo mundo tem direito de saber sua origem biológica. As pessoas que nasceram nessa clínica... os pais podem dar garantia que os filhos são seus biologicamente? É uma incógnita", pontua. 

Na opinião da jornalista, o material genético do ex-médico Roger Abdelmassih, isto é, o seu esperma, deveria fazer parte do banco de dados de estupradores do Estado de São Paulo. "Todas as pessoas que foram geradas através de reprodução assistida da antiga clínica do Abdel deveriam ter esse direito", reforça.

DNA  Roger Adelmassih
Documentário DNA Adelmassih. (Foto Divulgação)

'Viver não é neutro'

Para Ivandra Previdi, que mesmo conseguindo separar com êxito o jornalismo da sua vida pessoal, foi difícil não criar sentimentos em torno do caso envolvendo o ex-médico. Como mãe e mulher, a jornalista se revoltou diversas vezes com as histórias das mulheres - que só buscavam realizar o sonho da maternidade através da reprodução assistida.

No final das contas todo esse sonho era transformado em um pesadelo. Existe a ideia de que se você não é mãe, você não é mulher. Essas coisas estavam muito atreladas na cabeça delas, era um momento de fragilidade. No momento em que elas procuraram esse amparo profissional, elas receberam um assédio violento. É tudo muito absurdo e revoltante.

A jornalista contextualiza o cenário em que tudo se passou, o que pra ela, serviu como pano de fundo para muitas outras violências contra mulheres serem colocadas por debaixo do tapete. "Não existia essa tendência de denunciar apesar de tudo. A tendência era outra: esconder apesar de tudo", reforça.

Após o seu mestrado, a jornalista voltou para as redações. Afinal de contas, a vontade de contar histórias e denunciar outras situações envolvendo mulheres sempre falou mais alto para Ivandra. E foi na TV Record que a então editora resolveu produzir um documentário sobre a violência doméstica contra mulher do campo, chamado "Agricultoras Violentadas".

O intuito do projeto foi falar sobre a cultura do machismo, em paralelo à violência doméstica, nas áreas rurais no país, já que não existem dados específicos que escancaram a realidade cruel de muitas mulheres em situações de vulnerabilidade.

A produção, transmitida pelo Repórter Record Investigação, em 2020 chegou a vencer o prêmio internacional de Documentário de Televisão do One World Media Awards, uma das premiações internacionais mais importantes.

Ainda que seja um dos grandes nomes do jornalismo investigativo, a jornalista ainda sente dificuldade em entender a dimensão do seu trabalho, e das milhares de mulheres que ajudou e ainda ajuda com ele.

"Na hora que você está fazendo é uma matéria. Não tem essa dimensão histórica, isso vem depois", brinca. "Mas se antes eu tinha respeito por mulheres que tinham coragem de levar suas histórias adiante, ele foi transformado em mil vezes mais", garante.

Cena de 'Agricultoras Violentadas' (2020)
Cena de 'Agricultoras Violentadas' (2020) - Foto: TV Record/Reprodução

Ivandra acredita que a influência do seu trabalho com a maternidade vai além do que as palavras podem expressar. "Elas eram crianças, mas acho que você acaba ensinando muito mais pelo exemplo do que pela falação, pelo discurso. Eu tenho essa ideia, essa esperança, que pelo exemplo elas não se calem", diz a jornalista sobre as filhas.

Trabalhando desde os 20 anos, hoje com 55, a jornalista sempre viu sua profissão como uma forma de contribuir para muitos temas da sociedade, inclusive, o combate à violência sexual contra mulheres. 

"Eu tenho uma filha de 27 anos e outra de 19 anos. Elas sempre acompanharam minha rotina de trabalho com um certo senso de que aquilo era algo que precisava ser feito. Não era só o ganha-pão, tinha um sentindo e um ideal envolvido", afirma. Em relação à maternidade, o que a jornalista preza é pela relação de confiança com as filhas. "Que elas me tenham como um ponto de apoio e discussão", finaliza.

Ivandra com as filhas
Imagens de Ivandra com a filha mais velha, Natalia (Foto: Arquivo Pessoal)

*Ana Beatriz Gonçalves é jornalista e repórter do Papo de Mãe


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