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Intersexo: o distúrbio de diferenciação sexual que envolve diversas doenças diferentes

A Dra. Ligia Santos dá detalhes sobre o distúrbio de diferenciação sexual, que tem causas genéticas, cromossômicas e hormonais

Maria Cunha* Publicado em 22/03/2022, às 17h00

Dra. Ligia Santos, colunista do Papo de Mãe
Dra. Ligia Santos, colunista do Papo de Mãe

Imagine que você está grávida, feliz, vai fazer o seu primeiro ultrassom e aí, como está no início da gravidez, o médico fala que está tudo bem. O tempo passa, chega a hora de fazer um novo ultrassom e descobrir se é menino ou menina. Você faz um novo exame, o médico já consegue enxergar a genitália do bebê, mas ele te responde que não sabe o sexo, que pode estar cedo e que fará outro exame no futuro. A situação se prolonga até o momento do parto e, na hora em que o bebê nasceu, novamente, você pergunta se é menino ou menina. Mais uma vez, o pediatra afirma não saber e que precisará pesquisar melhor. Essa é a situação exposta pela Dra. Ligia Santos, colunista do Papo de Mãe, em mais um vídeo.

De acordo com a ginecologista, esse é um caso de intersexo ou distúrbio de diferenciação sexual. “É um distúrbio que envolve diversas doenças diferentes com causas genéticas, cromossômicas e hormonais. Pode ou não ter a ver com à questão LGBT+, como muita gente deve ter pensado”. Apesar disso, a explicação da Dra. Ligia Santos irá se restringir a questão física.

“Os distúrbios de desenvolvimento sexual podem ser observados logo no nascimento, então a criança tem uma genitália ambígua e que a gente não consegue dizer exatamente se é um menino ou uma menina, porque não desenvolveu muito bem nem para um lado e nem para o outro”, relata. 

Assista ao vídeo completo da Dra. Ligia Santos

De acordo com a médica, alguns casos são extremamente graves, como a hiperplasia adrenal congênita, doença que afeta o crescimento e o desenvolvimento, e que pode levar à morte do bebê. Por isso, é importante que o diagnóstico seja feito o mais precocemente possível.

“Uma vez que essa criança é diagnosticada com um distúrbio de desenvolvimento, aí tem um caminho muito longo para ser percorrido. Em geral, a certidão de nascimento fica com o sexo indefinido, porque a gente precisa adequar a genitália, a questão da identidade sexual e a forma como essa criança vai se desenvolver para que ela fique melhor”.

A Dra. Ligia ainda comenta que, antigamente, era muito comum que se decidisse o sexo da criança com base no que os pais e familiares achavam e no cariótipo. Hoje em dia, se percebeu que existe muito sofrimento quando isto é feito de forma precoce e sem avaliação.

“O próximo passo é que essa criança seja avaliada por uma equipe multidisciplinar, de psicólogos, endocrinologistas, médicos de diversas especialidades, para acompanhar o desenvolvimento dela e ver o que está acontecendo”, explica a ginecologista. 

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Entretanto, a colunista do Papo de Mãe relata que algumas crianças com distúrbio de desenvolvimento não conseguem ser diagnosticadas logo ao nascer, seja pelo distúrbio não ser tão evidente, pela equipe que atendeu não ser tão treinada para a percepção dessas diferenças.

“Essa criança vai crescendo e, quando chega na puberdade, essa fase da vida não acontece, é muito atrasada. A gente tem que lembrar que o menino começa a se desenvolver por volta dos nove anos, e a menina, por volta dos oito”.

O desenvolvimento

Segundo a Dra. Ligia, é possível notar que as crianças e adolescentes estão na puberdade com a aparição de acne e odor axilar, mudanças decorrentes do estímulo da glândula adrenal.

“Essas são as primeiras mudanças. Passados alguns anos, as gônadas, os testículos ou os ovários, vão estimular o desenvolvimento de outros caracteres secundários: os testículos vão crescer, vai aparecer pelos, as meninas vão começar a ter um desenvolvimento de deposição de gordura diferente, as mamas desenvolvem”. (Dra. Ligia Santos)

Mas, ela também pontua que quando o seu filho está com, mais ou menos, 14 anos, não desenvolveu nada e você não percebe mudanças, pode ser que tenha algum defeito de diferenciação sexual que precisa ser investigado.

“Algumas pessoas vão descobrir, por conta de tumores, uma hérnia que a criança carrega, ou pela menina começar a ficar muito peluda e o menino começar a desenvolver mama, que a puberdade é o momento de diagnóstico. Em outros casos, esse diagnóstico só vai ser feito por conta de uma infertilidade na fase adulta”.

O distúrbio de diferenciação sexual

A Dra. Ligia Santos finaliza ao ressaltar que o distúrbio de diferenciação sexual tem uma prevalência muito variada, de uma criança a cada 200 até uma criança a cada 5.500. “Vai depender muito da fonte, porque são diversas doenças que vão entrar nesse guarda-chuva de distúrbio de diferenciação sexual”.

Além disso, a médica reforça, embora não haja necessidade de desespero, a doença não pode ser negligenciada e é importante buscar ajuda adequada.

“O tratamento dessas crianças precisa ser feito em um centro terciário, um hospital grande, diferenciado, porque é um tratamento longo, muito complicado, que envolve diversos profissionais e que não necessariamente tem a ver com orientação ou identidade sexual”, conclui. 

*Maria Cunha é repórter do Papo de Mãe

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