Papo de Mãe
Papo de Mãe
» ALARMANTE

Gritos e palmadas: pesquisa aponta que 67% dos pais usaram agressões verbais e físicas durante a pandemia

Estudo feito pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal mostrou efeitos da pandemia e do isolamento no comportamento dos responsáveis e cuidadores

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 24/06/2021, às 17h33

A educação positiva, ou seja, sem práticas de violência verbal ou física, é o único caminho que deveria ser seguido por pais e cuidadores
A educação positiva, ou seja, sem práticas de violência verbal ou física, é o único caminho que deveria ser seguido por pais e cuidadores
Com os cuidados redobrados e a sobrecarga em meio à pandemia da Covid-19, o número de pais que usaram de práticas já ultrapassadas para "educar" seus filhos, como palmadas, gritos e chacoalhões, aumentou drasticamente. Pelo menos é isso que mostra a recente pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, com o apoio da Porticus América Latina, o " Primeiríssima Infância - Interações na Pandemia: Comportamentos de pais e cuidadores de crianças de 0 a 3 anos em tempos de Covid-19 ".

Entre os entrevistados, pais e mães representaram 53% da amostra, sendo que 67% deles assumiram usarem de práticas educativas negativas para conter o comportamento da criança durante o isolamento social. Eles declaram ter recorrido, ao menos uma vez, ao uso de chacoalhão, palmada, ou apertos nos braços. Já as práticas verbais também entraram nessa leva, sendo elas gritos e palavras depreciativas. 

O estudo chega próximo ao Dia Nacional pela Educação sem Violência, lembrado no dia 26 de junho, quando a Lei da Palmada  (13.010/2014) entrou em vigor, há exatos sete anos. Ela foi criada para proteger as crianças dos abusos parentais, em homenagem ao menino Bernardo Boldrini, morto brutalmente pelo pai e a madrasta em 2014.

Veja também

Os dados foram elaborados sob consultoria da Kantar Ibope Media, que mapeou pais e responsáveis com as crianças de zero a 3 anos em todo o Brasil durante a pandemia e funciona. Segundo a Fundação, ao todo foram entrevistados 1036 homens e mulheres - pais, mães, avôs, avós, tios, tias ou outros parentes de classes A, B, C e D. 

Em comparação ao estudo anterior, feito antes da pandemia, aproximadamente 10% dos cuidadores (pais, mães, avôs, avós, tios, tias ou outros parentes) afirmaram que aplicaram palmadas como métodos disciplinares quando a criança faz birra ou não obedece.

Paula Perim, diretora de Comunicação da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, diz que algumas peculiaridades trazidas pelo isolamento social explicam tal aumento alarmante. "A sobrecarga de trabalho, acúmulo de funções, estresse e incerteza econômica. Torcemos para que isso tudo passe e pais e cuidadores de crianças muito pequenas – estamos falando da primeiríssima infância, até três anos, portanto – sigam numa direção oposta", afirma.

A boa notícia é que a pesquisa também apontou para uma tendência: parte dos cuidadores demonstraram preferência pelas práticas educativas positivas, que são mais efetivas para consertar comportamentos errados – 94% dos pais e responsáveis disseram que tentam distrair as crianças para tirar o foco do problema, 84% mostram os ricos e consequências, e 89% explicam o comportamento errado à criança.

Traço cultural

Segundo Paula Perim, a palmada ainda é um traço muito forte na cultura brasileira e que é passado de geração para geração. "As pessoas ainda têm aquele pensamento ‘o filho é meu e eu educo ele da maneira que eu quiser; veja esse moleque, virou médico, o que umas palmadas na infância não são capazes de fazer?’. Isso é muito danoso porque vai atravessando gerações".

Em outras palavras, uma pessoa que cresce com esta forma de "educar" normalizada, muitas vezes reproduz quando chega a sua hora de criar um filho.

O que diz a Lei da Palmada?

Segundo o advogado Ariel de Castro Alves, membro do Instituto Nacional dos Direitos da criança e do adolescente, a Lei da Palmada ou Lei Bernardo, proíbe que pais e mães se utilizem da agressão para educar seus filhos. No entanto, ela serve mais como uma lei preventiva, e não punitiva.

"Quando houver denúncia, as pessoas devem ser encaminhadas para programas de apoio e orientação. O problema é que esses programas não foram criados e nem existem na maioria dos municípios. Esses pais precisam ser educados para aprender a cuidar dos seus filhos", diz ele.

Recentemente o caso do menino Henry chocou a todos. O menino de 4 anos sofreu graves empacamentos do padrasto Dr. Jairinho, e não resistiu aos hematomas e ferimentos internos. A Lei da Palmada, nessa situação, já seria tarde de mais. Por isso mesmo Dr. Ariel afirma: é preciso denunciar, mesmo quando houver dúvidas.

"Quem sabe de algo e não denuncia pode até responder por crime de omissão de socorro", diz o advogado, que na época em que a Lei Bernardo estava sendo discutida com o apoio do movimento "Não bata, eduque", já defendia o fim da aplicação de métodos violentos para punir ou educar crianças e adolescentes.

 *Ana Beatriz Gonçalves é jornalista e repórter do Papo de Mãe

Confira a entrevista completa com o advogado Ariel de Castro Alves e inscreva-se no Canal Papo de Mãe:

HomeNotíciasPandemiaPrimeira InfânciaViolência doméstica