Papo de Mãe
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Formação de professores é assunto sério antes, durante e pós-pandemia

A necessidade de apoio ao professor com relação à formação vai muito além da parte técnica, especialmente durante o momento atual. De acordo com a ANAMT – Associação Nacional de Medicina do Trabalho – a profissão do professor é uma das que apresenta os mais altos índices de síndrome de burnout, juntamente com profissionais das áreas da saúde e de segurança pública, por exemplo.

Catarina Pontes* Publicado em 07/10/2020, às 00h00 - Atualizado em 30/04/2021, às 16h12

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(Foto: Reprodução Papo de Mãe)

Se há algo de positivo que temos percebido nos últimos meses, por conta das aulas remotas, é o sentimento de que a comunidade de professores está mais unida do que antes.

Temos essa percepção por conta de relatos de professores por todo o país, que estão se ajudando a adaptar suas aulas, descobrindo maneiras de contribuir para o aprendizado dos alunos à distância. Se por um lado existe o desafio no tato com as novas tecnologias, por outro, temos o ganho com as famílias participando mais ativamente do processo de ensino-aprendizagem.

Em um relatório produzido pela UNESCO, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura, o impacto no início do fechamento das escolas por conta da pandemia causada pelo coronavírus afetou a rotina de estudos de mais de 1.5 bilhões de alunos em 188 países, ou 91% de alunos ao redor do mundo. Dados publicados em abril deste ano, reportavam que tínhamos, no Brasil, mais de 130 mil escolas fechadas e cerca de 47 milhões de alunos sem aulas presenciais desde o fechamento das instituições em março, segundo estimativa do coordenador de desenvolvimento humano do Banco Mundial para o Brasil, Pablo Acosta.

A área da educação foi uma das mais afetadas nesse contexto, e para os professores, o peso disso parece ter sido ainda maior: as expectativas depositadas sobre eles foram enormes, pois esperava-se que eles resolvessem todas as questões educacionais, ajudando alunos a continuar aprendendo como antes, mas em um contexto totalmente diferente – e sem terem tido, na maioria dos casos, a oportunidade de receber formação adequada prévia para iniciar as aulas remotamente.

Os cômodos de nossas casas foram transformados em salas de aulas em um piscar de olhos. Adaptações de espaço e de cenários, juntamente com descobertas de quais plataformas usar, ou como adaptar conteúdo e materiais para aulas online, também foram forçadas a acontecer na mesma velocidade. Temos acompanhado pesquisas com professores e seus testemunhos, desde o início do ensino remoto, e vimos como o início dessa modalidade de ensino trouxe desafios, dificuldades, angústia e insegurança. A boa notícia é que o sentimento tem agora mudado para um de mais confiança em diversos aspectos da profissão.

A necessidade de apoio ao professor com relação à formação vai muito além da parte técnica, especialmente durante o momento atual. De acordo com a ANAMT – Associação Nacional de Medicina do Trabalho – a profissão do professor é uma das que apresenta os mais altos índices de síndrome de burnout, juntamente com profissionais das áreas da saúde e de segurança pública, por exemplo. Oferecer apoio à saúde mental do professor, portanto, é tão importante quanto ajudá-lo a aprimorar sua didática.

Em pesquisa realizada pelo Instituto Península, 55% dos professores declararam que apoio emocional é um dos pontos mais importantes nesse momento. Com relação a necessidade de treinamentos para ensinar à distância 75% dos educadores apontaram como essencial, seguido de suporte pedagógico para 64% dos participantes do levantamento. Quando perguntados como se sentem em relação ao ensino remoto, cerca de 88% responderam que nunca tinham dado esse tipo de aula antes da pandemia e, a maioria, não se sente preparado.

A formação holística de professores é um assunto de extrema importância e merece ter atenção e cuidado especial, não só por parte dos próprios docentes, mas ser reforçada e encorajada por gestores escolares da mesma forma. Concordo com Rubem Alves quando ele dizia que “a questão crucial da educação é a formação do educador – como educar os educadores?”. A parceria entre a instituição e o professor, com a oferta de momentos de desenvolvimento e oportunidades de crescimento, só contribuirão para que alunos tenham uma melhor experiência de aprendizado.

Antes da pandemia, os professores, em sua vasta maioria, não receberam formação para ministrar aulas no modo de ensino remoto ou à distância. Não foram instruídos previamente acerca de como deveriam adaptar atividades em grupos, monitorar a participação dos alunos, avaliar seu progresso e aprendizado, ou oferecer apoio emocional aos mesmos. A formação que tem sido oferecida desde então é uma reação à necessidade de adaptação, mas indispensável para que as aulas continuem acontecendo à distância.

É de extrema importância destacar que os desafios encontrados por professores anteriormente já eram consideráveis em momentos pré-pandemia, e que eles somente se proliferaram ainda mais com o ensino remoto. Carga de trabalho aumentada por conta do novo contexto, adicionada à rotina doméstica com seus afazeres e cuidados com suas famílias – lembrando que professores também estão auxiliando seus filhos com as aulas remotas em casa.

Gosto de comparar professores a camaleões, pensando em sua grande capacidade de adaptação e de seguir em frente, e é o que tem acontecido face às atuais adversidades. Temos visto professores investindo horas e horas (e muitas vezes seu próprio dinheiro) em cursos e formações para saber como ministrar aulas online, adaptando seus cômodos em salas de aula, comprando equipamentos para melhorar a qualidade da experiência de aprendizado, e buscando informações em suas redes de apoio – a comunidade que tem se fortalecido como resultado da crise.

Se entendemos, portanto, que oferecer metodologias ativas aos alunos é a abordagem a se seguir, o mesmo deve ser feito nas iniciativas de formação de professores. Temos que estar atentos aos próximos rumos da educação pós-pandemia e pensar na volta às aulas presenciais. Não temos a certeza completa de quando isso acontecerá de vez, mas sabemos que o ensino híbrido já vem demonstrando sua importância e deverá se tornar uma realidade.

Por fim, compartilho da visão do andragogo americano Eduard Lindeman que dizia que “Toda a vida é aprender, portanto, a educação não pode ter fim.” É preciso que professores continuem tendo oportunidades de aprender, desaprender e reaprender, com sua formação sendo levada a sério e sempre ressignificando o processo de ensino aprendizagem, inspirando, assim, o mesmo comportamento nos alunos para a transformação da educação.

*Catarina Pontes é Gerente do EDC (Educational Development Centre) da International School – programa de educação bilíngue para escolas. É palestrante internacional e coautora do livro Getting into Teacher Education, a Handbook (Cengage Learning.) Atualmente, faz MBA em Gestão de Pessoas.


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