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Especial “Sem Recreio” deixa escancarada a realidade do trabalho infantil no Brasil

Investigação jornalística encontra 70 crianças e adolescentes vítimas do trabalho infantil espalhados por todas as regiões do Brasil

Fernanda Fernandes* Publicado em 18/05/2021, às 11h23

A pandemia fez aumentar o trabalho infantil no Brasil
A pandemia fez aumentar o trabalho infantil no Brasil
Nesta reportagem você vai ler histórias chocantes de trabalho infantil descobertas pela equipe do projeto Lição de Casa. Um documento que denuncia a gravidade da situação de crianças e adolescentes no nosso país, agravada pela pandemia. E fica a pergunta: eles abandonam a escola porque precisam ajudar em casa já que a situação da família é grave ou por que a situação da família é grave que eles abandonam a escola? O fato é que a evasão escolar faz aumentar a exploração do trabalho infantil, o que é crime.

Em meio à crise econômica gerada pela pandemia, diversas famílias brasileiras tiveram suas rendas comprometidas, o que fez com que tivessem que buscar novas soluções, sendo uma delas colocar os filhos para trabalhar e conseguir uma renda extra. Com as escolas fechadas, muitas crianças deixaram o ensino de lado e começaram a ter outra responsabilidade: o trabalho. Vendo essa situação alarmante, a equipe do projeto Lição de Casa mergulhou em uma investigação nacional, com o objetivo de analisar a relação entre a evasão escolar e o trabalho infantil neste período de pandemia.

O Lição de Casa é um projeto colaborativo, nacional e independente, lançado em julho de 2020, para investigar os impactos da pandemia na educação brasileira. Em janeiro a equipe começou a desenvolver a reportagem especial “Sem Recreio”. Durante 3 meses, 15 profissionais realizaram investigações por todo o Brasil e, ao longo da apuração, encontraram 70 vítimas do trabalho infantil. Entre esses casos, existem meninos e meninas que estão sendo explorados, outros que não conseguiram conciliar o estudo e o trabalho e muitos que não conseguem ter acesso às aulas remotas.

Foto de Victoria Alvares para a reportagem do Projeto Lição de Casa.
Foto de Victoria Alvares para o Projeto Lição de Casa

As vítimas do trabalho infantil

As histórias abordadas pela equipe mostram que esse problema não está em apenas um lugar, mas por todo o país, e os relatos expõem diversas formas de trabalho. Na região Norte, no estado do Amapá, uma menina de 10 anos foi encontrada trabalhando como doméstica junto com a mãe. Em entrevista à repórter Luiza Nobre, a criança afirmou: “Já era meio difícil levar os estudos na escola, faltava bastante por causa dos problemas aqui de casa, e aí com a pandemia deixei de ir de vez”. Já na região Sudeste, em Minas Gerais, um menino de 13 anos arrumou um “emprego” em um engenho de cana-de-açúcar para ajudar a família que precisava de renda, até que em um dia o garoto sofreu um grave acidente enquanto operava uma das máquinas, e teve suas duas mãos amputadas.

Outro caso foi encontrado no Rio Grande do Sul, onde uma criança de 12 anos passou a entregar as atividades em branco, até que a direção da escola descobriu que, além das dificuldades que a menina já apresentava, ela trabalhava com os pais recolhendo latinhas pelas ruas de São Luiz Gonzaga.

O projeto registrou diversos outros relatos e, entre eles, estão presentes trabalhos que aparecem na lista das piores formas de trabalho precoce, tais como: trabalho análogo à escravidão, tráfico de drogas, garimpos, mendicância, lavouras e aplicativos de entrega.

Clique aqui para ler as reportagens completas. 

Joana Suarez relata sua experiência com o projeto

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Joana Suarez, coordenadora do Lição de Casa

Em entrevista ao Papo de Mãe, Joana Suarez, repórter e coordenadora do projeto, comenta como surgiu a vontade de desenvolver essa reportagem especial: “Nós vimos que o governo não vai fazer estatísticas sobre o trabalho infantil na pandemia, além de ter reduzido o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), então pensamos que esse trabalho seria um documento desse momento”. A partir disso, iniciaram as pesquisas e buscaram formas de encontrar as histórias espalhadas por todo o Brasil. Conversaram com mais de 20 fontes, e a jornalista afirma que após toda a investigação percebeu que o trabalho infantil é a causa e a consequência da evasão escolar. Ou a criança trabalha e por isso acaba saindo da escola, por estar cansada, ou por ter saído da escola, acaba sendo opção das famílias na busca de renda.

Joana relata que teve a experiência de entrevistar uma menina de 13 anos, em Recife, que tinha acabado de perder sua avó, que era uma das fontes de renda da família, para a Covid-19. Os pais ficaram desempregados no mesmo momento, então para ajudar na renda familiar ela passou a vender hamburgueres. O movimento das vendas era maior na parte da noite, e às 8h da manhã ela não tinha disposição para assistir às aulas remotas. “Eu morri de dó quando falei com ela, era perceptível que ela queria estar na escola, queria estar aprendendo mais, se dedicando, mas ela achava importante estar ajudando a família. Ao fazer as entrevistas vemos pela fala das crianças que é uma geração que não coloca a educação em primeiro lugar porque precisa sobreviver”.

Por fim, a coordenadora do projeto expressa com tristeza e é muito sincera ao dizer que “Mesmo depois de ter mergulhado nessa temática durante 3 meses, ainda acho que não sabemos nem 10% do que está acontecendo. É triste e desesperador pensar onde essas crianças podem estar, o que pode estar acontecendo, e como elas estão sendo violadas”.

Marcas difíceis de serem apagadas

As consequências do trabalho infantil são inúmeras, apesar dos impactos não serem tão perceptíveis como as outras violações infantis.

Ao assumir tanta responsabilidade e estar exposta a situações de risco desde cedo, a criança ou o adolescente podem desenvolver problemas psicológicos, adquirir problemas de saúde e sofrer acidentes. Outro fator é que existe uma grande possibilidade de eles perpetuarem o ciclo de pobreza da família e não conseguirem trabalhos no futuro, por terem deixado de acompanhar as aulas na escola.

Além de todas essas questões, esses meninos e meninas perdem a oportunidade de viver a sua infância, deixam de brincar, sonhar, fazer amigos, praticar esportes, e carregam marcas e traumas irreversíveis ao longo de toda a vida.

*Fernanda Fernandes é estudante de jornalismo (PUC-SP) 

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