Papo de Mãe
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'Não sou a favor do retorno das aulas sem vacina', diz médico Roberto Trindade

Roberto Trindade, médico de família que está linha de frente, atendeu muitas crianças com covid-19 onde trabalha, na UBS Inácio Monteiro, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo

Mariana Kotscho* Publicado em 21/01/2021, às 00h00 - Atualizado às 15h48

Papo sobre saúde com o médico Roberto Trindade
Papo sobre saúde com o médico Roberto Trindade

O retorno às aulas presenciais tem causado muita discussão entre pais, mães, profissionais das áreas da saúde e da educação. Há ainda dúvidas e insegurança, além de diferenças entre as condições de escolas públicas e particulares. Em geral, as famílias concordam com o retorno, desde que com segurança e seguindo as normas sanitárias. Mas como saber se cada escola terá condições para isso? Tem quem defenda a volta a qualquer custo e quem decidiu só mandar filho ou filha para a escola depois que estiverem vacinados.

Já houve manifestações de pediatras a favor do retorno e criou-se uma polêmica em torno disso. Fala-se na saúde mental das crianças, nas perdas escolares, na falta de convívio. Por outro lado, há ainda a ameaça real da Covid-19 que está longe de ser controlada no Brasil. Já nem se sabe se haverá vacina para todos e os profissionais de educação não foram incluídos no grupo com prioridade.

O Papo de Mãe tem ouvido as diferentes posições de vários profissionais e traz desta vez uma entrevista com um médico do SUS. Dr. Roberto Trindade já participou do Programa Papo de Mãe na TV Cultura. Ele atende pacientes na UBS Inácio Monteiro, zona leste da capital paulista e é médico de família.

O médico, que não contraiu coronavírus e ainda não tomou a vacina, conta que passou por muitos momentos difíceis nos últimos meses. “Com o atendimento todo focado em covid, e com razão, a gente viu se complicando casos de pacientes com outras doenças. Dificuldade para internar estes pacientes pela lotação dos hospitais, perder estes pacientes e também os doentes de covid. Este ano (2020) foi para esquecer, de verdade.”

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Entrevista

MK: O senhor é a favor do retorno das aulas mesmo sem a vacina? Por que?

Dr.Roberto Trindade: Não sou a favor do retorno das aulas sem ter a vacina para profissionais de saúde e de educação. Apesar de sabermos que as crianças transmitem menos e apresentam quadros leves na maioria dos casos, as condições para um retorno com segurança podem não ser cumpridas em todos os locais. Existem escolas que não dispõem de torneiras que funcionem! Não é possível garantir que todos tenham a mesma segurança. E realizar um retorno “parcial”, privilegiando as instituições de ensino que tenham condições de seguir essas normas aprofundaria ainda mais o abismo existente entre a educação pública e privada.

Imagem do médico Roberto Trindade
O médico Roberto Trindade

MK: O que acha dos argumentos de quem defende a reabertura imediata?

Dr.Roberto Trindade:  Acho que os argumentos para a reabertura não estão de todo equivocados. Durante os primeiros meses da pandemia não houve variação significativa no número de casos e internações em crianças. Isto, aliado aos fatores que mencionei como evolução boa na maioria das vezes e baixa transmissibilidade, sustentariam facilmente estes argumentos. No entanto, já houve um aumento no número de internações de crianças menores de 10 anos em São Paulo (de 18 em outubro para 43 em novembro). Este número pode parecer irrisório, mas se considerarmos que de março a outubro morreram 510 crianças com até 10 anos, contra 103 nos Estados Unidos até setembro, a cifra ganha relevância. Mesmo isoladas, as crianças estão adoecendo, infectadas pelos pais ou outras pessoas com as quais tem contato. Se aumentamos a exposição, como no caso de um ambiente escolar, esta situação pode aumentar ainda mais. Devemos assinalar aqui que é praticamente impossível garantir que todas as medidas de segurança sejam cumpridas. Temos exemplos disso nas ruas diariamente.

MK: Quais são as condições necessárias para acontecer uma reabertura com segurança?

Dr. Roberto Trindade: Acredito que sem pelo menos a imunização dos profissionais da Educação qualquer tentativa de retorno seja arriscada, por dois motivos principais:

  • Muitos destes trabalhadores encontram-se em grupos de risco para complicações da Covid-19.
  • Ainda que seguindo todas as recomendações, o risco de infecção – ainda que muito pequeno – existe. Estas crianças podem ser infectadas na escola e ter familiares que se enquadram em grupos de risco. Transmitir menos não é o mesmo que não transmitir. Em muitas moradias é impossível realizar a proteção deste familiar, isolando-o do contato com a criança.

MK: O que acha do movimento de pediatras a favor da reabertura?

Dr. Roberto Trindade: Entendo que o movimento dos pediatras é legítimo, porém não analisou o contexto geral. Falamos de medidas para um retorno seguro, mas estas medidas são difíceis de ser implementadas em todos os cenários. É evidente que a ausência do convívio escolar pode causar prejuízos tanto à saúde mental quanto ao desenvolvimento neuropsicológico das crianças. Mas precisamos ver que alguns professores e pais não acreditam que se possa garantir um retorno seguro em todos os locais. Isso expõe os adultos a uma decisão que também causa sofrimento mental. De igual forma, como podemos monitorar que todos os cuidados indicados estão sendo seguidos, em todos os estabelecimentos de ensino? Como dar segurança a trabalhadores que, muito antes da pandemia, já precisavam realizar adaptações para exercer suas funções? Acredito que a discussão não deve se resumir ao âmbito dos protocolos de segurança, mas também levar em conta as diversas realidades dos trabalhadores da Educação.

MK: Como está a situação hoje na UBS onde o doutor trabalha, na zona leste de São Paulo?

Dr. Roberto Trindade: Na UBS onde trabalho os casos diminuíram no final de outubro, voltando a subir na segunda quinzena de novembro. Temos ainda uma alta procura de pacientes com sintomas respiratórios e muitos resultados positivos para Covid-19. Ainda assim, vemos muitas pessoas pelas ruas sem máscara e aglomerações de todo o tipo, apesar de todo o esforço das equipes de saúde e de alguns setores da comunidade na conscientização sobre a importância das medidas de prevenção.

MK: Chegou a atender crianças vítimas de covid?

Roberto Trindade: Já atendi várias crianças vítimas de Covid-19. Seguindo o que é mais comum, a maioria apresentou quadros leves, sem complicações. Tenho conhecimento de apenas uma internação no período, com total recuperação. Mas o que me chama a atenção nestes atendimentos é a idade das crianças: a maioria tinha menos de 8 anos, sendo a mais jovem que atendi uma lactente de apenas 2 meses.

*Mariana Kotscho é jornalista e apresentadora

Confira o vídeo da Dra. Fernanda Viana, do Saúde4kids, sobre Covid-19 em crianças:

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