Papo de Mãe
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ENEM: a credibilidade em jogo – por Nílson José Machado*

pmadmin Publicado em 27/04/2011, às 00h00 - Atualizado às 16h52

27 de abril de 2011


ENEM: a credibilidade em jogoPor Nílson José Machado* O Exame Nacional do Ensino Médio surgiu há doze anos no cenário educacional brasileiro como uma iniciativa cercada de expectativas positivas. Vencidas as resistências iniciais, em pouco tempo o ENEM consolidou-se como uma avaliação com grande credibilidade, passando a orientar a organização do trabalho nas escolas. Ultimamente, algumas ocorrências desviantes em relação ao projeto inicial têm conduzido o ENEM a uma situação de risco, em que sua credibilidade está em jogo. As razões para tal fato são apresentadas a seguir. O grande mérito do ENEM foi tirar do centro das atenções os indispensáveis conteúdos disciplinares, dando ênfase às competências pessoais básicas, que deveriam ser desenvolvidas por meio deles. Se nossos avós diziam que as matérias escolares eram os meios para que, em última instância, saíssemos da escola sabendo “ler, escrever e contar”, o ENEM atualizou tais expectativas, pretendendo que, ao final da Educação Básica, os alunos deveriam demonstrar capacidade de expressão e de compreensão, de argumentação e de decisão, de contextuação e de imaginação. Compreendendo o Ensino Médio como a etapa final da Educação Básica, o projeto do ENEM visava avaliar a formação pessoal dos alunos, não sendo adequado para a utilização como processo seletivo, como os vestibulares, muito menos para a avaliação de instituições escolares. Hoje, o ENEM encontra-se duplamente descaracterizado. Em primeiro lugar, sua utilização em substituição aos exames vestibulares é absolutamente inconsistente, uma vez que ele não tem poder de discriminação tão fino quanto tais exames exigem. No máximo, poderia ser utilizado em sintonia com indicadores mais específicos para as diversas carreiras, incluindo-se as entrevistas. O desvio mais grave de função, no entanto, ocorre na utilização do ENEM para a construção de rankings das escolas básicas. Nesse sentido, a divulgação dos resultados do ENEM tem constituído, anualmente, um espetáculo de puro nonsense. Em 2009, quando a contagem dos pontos era de 0 a 100, 70 escolas tiveram resultados entre 64 e 65 pontos; em 2010, quando o número de pontos foi estendido para 1000 de um modo técnico, absolutamente incompreensível para os avaliados, as 50 putativas melhores escolas tiveram notas entre 749 e 701. As diferenças entre duas delas são tão relevantes quanto uma nota 7,4 é diferente de 7,3, por exemplo. Mas há muitos outros pontos obscuros. O número de alunos de cada escola avaliada é muito discrepante. Enquanto algumas escolas tiveram centenas de alunos participantes, outras tiveram poucas dezenas. Como se pode depreender, a presença de um pequeno número dos alunos mais motivados pode concorrer para uma distorção nos resultados. O ENEM pode ser importante para a avaliação de uma escola, mas jamais poderia ser utilizado como indicador único. A escolha de uma escola para os filhos tendo por base apenas tal indicador pode ser um equívoco nada desprezível. Tal tipo de exame seria, no máximo, adequado para a caracterização de 4 ou 5 faixas de escolas, de modo similar ao da atribuição de estrelas aos hotéis. Ao referendar o absurdo dos rankings, o ENEM pode estar minando sua credibilidade como instrumento de avaliação. Afinal, usar um machado como se fosse um bisturi não tem outro nome: é pura insensatez. * Nilson José Machado é professor titular da Faculdade de Educação da USP e autor de diversos livros. Participou como especialista convidado no Programa Papo de Mãe sobre “transição escola-faculdade” exibido em 24.04.2011. Para outras informações e contato acesse: http://www.nilsonmachado.net/ *** DICA DE HOJEBrincadeira com números Acontece nos dias 02 e 03 de maio, em Guarulhos, a 28.ªedição da mostra de jogos matemáticos. A iniciativa, com entrada franca, é coordenada pelo curso de Matemática da Universidade Guarulhos (UnG). O evento irá expor 28 jogos pensados e produzidos por alunos da graduação. As peças ensinam de maneira lúdica desde raiz quadrada até operações simples da ciência dos números, como soma, subtração, multiplicação e divisão. As formas (triangulo, retângulo, quadrado, etc.) também fazem parte de temas de alguns dos jogos. A coordenação da mostra já recebe inscrições de escolas públicas e particulares interessadas em levar estudantes. O agendamento de horário deve ser feito pelo e-mail apires@prof.ung.br. O evento acontece na Unidade Guarulhos-Dutra da UnG, das 19h30 às 22h30. A participação é livre. Fonte: Assessoria de Comunicação – UnG Adriano Magrinelli – amagrinelli@ung.br e Rosany Cardoso – mailto:rclima@ung.br