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Ela sobreviveu à tentativa de feminicídio e hoje alerta outras mulheres sobre violência doméstica

Marinete Luiza Oro passou por uma morte clínica, entrou em coma e sofreu um AVC. Sobreviveu e hoje ela tenta provar na Justiça que foi envenenada pelo ex

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 04/10/2021, às 19h45

Um papo com Marinete Luiza Oro, empresária, advogada mãe e apresentadora de TV
Um papo com Marinete Luiza Oro, empresária, advogada mãe e apresentadora de TV

"Por incrível que pareça eu fui advogada dele. Foi assim que nos conhecemos", conta Marinete Luiza Oro, 59, empresária, mãe, apresentadora e sobrevivente de violência doméstica. Ela já havia tido um casamento de 15 anos, e não estava à procura de um novo relacionamento. Mas foi em meados de 2005, que a relação, que antes era estritamente profissional, passou para algo mais.

"No início eu não queria porque eu tinha acabado de me divorciar, mas ele insistiu muito, e a pessoa abusiva é boa manipuladora. Na época eu trabalhava no Tribunal de Justiça e ele me mandava flores, me convidava pra jantar, essas coisas", lembra Luiza sobre um capítulo nebuloso da sua vida.

Apesar de ser uma mulher livre e independente, principalmente no quesito econômico,  Luiza era podada diversas vezes pelo companheiro, com quem nunca chegou a morar sob o mesmo teto. "Nós não morávamos juntos, mas as violências eram verbais e emocionais. Ele tinha um controle, eu não podia nem sair do meu trabalho e ir em algum lugar, por exemplo".

Com o passar dos anos, a advogada nascida no município Matelândia, interior do Paraná, ficava cada vez mais refém do seu relacionamento. Mesmo com os alertas dos filhos, parentes e amigos, que percebiam que o namoro não estava fazendo bem, para Luiza abandonar aquela situação era quase impossível. "Era um terrorismo violento, só que eu não conseguia sair. Eram muitas ameaças contra os meus filhos, mesmo sendo advogada eu não conseguia sair", afirma.

Precisou acontecer uma experiência de quase morte para que a empresária se desse conta do perigo que corria. Depois de vencer um episódio de câncer em 2014 – ela foi diagnosticada com um tumor maligno (carcinoma) agressivo em seu rosto  – Luiza Oro sofreu uma parada cardiorrespiratória de um episódio que até hoje a marca profundamente. Na Justiça, ela alega que foi vítima de envenenamento com suspeita sobre seu ex-parceiro, e o caso está sob investigação criminal.

Assista à live "Feminicídio: O debate não pode parar"

O suco estragado

feminicídio - luiza oro
"Ele falou que tinha comprado pra mim e não quis fazer desfeita".

Era uma manhã de sábado quando Marinete Luiza Oro tomou um copo de suco de laranja "esquisito" na casa do ex. Na noite anterior, durante o jantar, tudo parecia normal entre o casal. Mas foi no café da manhã do dia seguinte que a advogada começou a estranhar o comportamento do companheiro.

"Ele me serviu um copo de suco de laranja, mas o suco já estava no copo na geladeira. Na hora alguma coisa me falou pra não tomar, mas ele insistiu. Num dia normal, ele nunca servia o suco no copo direto. Mas eu tomei, e senti um gosto muito estranho e falei que estava estragado", lembra.

A insistência do parceiro para tomar o suco fez com que Luiza se sentisse pressionada. Um detalhe que ela não se esquece, apesar de sua memória ter apagado a maioria dos episódios seguintes, é que no fundo do copo de laranja tinha uma espécie de "resíduo". "Depois disso ele inventou uma desculpa e me trouxe pra casa", conta a empresária.

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Mas aquele final de semana do ano de 2017 não era um fim de semana qualquer. No dia seguinte, Luiza e o então companheiro tinham um compromisso em Foz do Iguaçu – os dois eram sócios de uma empresa. "Eu tinha fechado um grande negócio", explica.

No sábado mesmo, quando foi para o salão de beleza, Marinete Luiza Oro relatou um mal-estar para a filha mais velha. "Ela me levou porque eu não estava conseguindo dirigir. Lá, eu tive que deitar porque não estava me sentindo bem. Assim quando cheguei em casa eu deitei, e no outro dia [que seria o da viagem] não consegui levantar e tive uma convulsão".

Levada às pressas para o hospital, a última coisa que a advogada se lembra foi de ter perdido o ar. Naquele dia ela teve uma parada cardiorrespiratória, tendo morte clínica.

Muitas coisas apagaram da minha cabeça, mas esse episódio é muito vivo porque é algo que a minha mente não quis apagar. (Marinete Luiza Oro) 
Luiza Oro é sobrevivente do feminicídio
Os médicos tiveram que reanimar Luiza Oro.

Após o protocolo de procedimentos e manobras feitas pela equipe médica, os batimentos cardíacos de Luiza voltaram. No entanto, ela entrou em coma e acabou sofrendo um AVC isquêmico e encefalopatia pela falta de oxigênio durante a parada cardiorrespiratória.

"Tudo aconteceu no domingo, certo? Só que na segunda-feira, mesmo com tudo que estava me acontecendo, ele viajou para Foz do Iguaçu e fechou o contrato. Pegou todo o dinheiro pra ele", afirma. Ao todo, Marinete Luiza Oro passou 47 dias na UTI –  e recebendo a visita do companheiro.

Começando do zero

"Quando voltei pra casa tive que reaprender tudo... andar, falar, comer, tudo", lembra a advogada sobre o período mais difícil de toda sua vida. Por causa da morte clínica, Luiza ficou com diversas sequelas cerebrais.

Até mesmo a visão da empresária foi afetada – ela ficou completamente cega. Sua condição não impediu que o seu ex continuasse a praticar os abusos emocionais. "Meus filhos enfrentavam, mas ele não se intimidava com ninguém. Naquele mesmo ano eu cortei os vínculos, mas ele não aceitava o fim do relacionamento. Ameaçava dizendo que ia me matar e matar os meus filhos."

As suspeitas do envenenamento só começaram a ficar mais evidentes por Luiza e seus familiares com o passar dos meses. Ela diz que sofreu de intoxicação por Estricnina (uma substância química muito forte, usada como pesticida). Com a recuperação lenta e árdua, a empresária decidiu focar em sua readaptação no primeiro momento. 

"Demorou três anos [para denunciar o ex]. Não foi de imediato. De 2017 pra cá eu estava muito preocupada em me restabelecer, reaprender a falar, então essa era a minha preocupação. Uma das sequelas foi a cegueira, então tudo demorou... e ele não se comovia com nada. Eu podia estar do jeito que fosse, os abusos emocionais, verbais eram surreais", relata.

Após recuperar 50% da sua visão e muitas sessões de fisioterapia, em julho de 2020 Luiza Oro tomou a decisão de fazer um boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher contra o ex-namorado. Ela conta que na época, um policial do local comentou que uma outra mulher havia pedido uma medida protetiva contra ele.

"Hoje em dia eu não tenho mais medo. Agora o caso está sob investigação isso e vai ser enviado pro Ministério Público", atualiza ela sobre o processo criminal.

Como uma borboleta

feminicídio
"Sua vida só muda quando você retoma as suas asas".

Um dos símbolos que Marinete Luiza Oro adotou para a sua vida após a experiência de "quase morte", é a borboleta. Naturalmente as borboletas são vistas como símbolo de transformação, o que para a advogada se encaixa perfeitamente em sua história.

Comecei a me redescobrir e me reinventar. Entendi que eu precisava superar e me superar. Tanto é que voltei a estudar, esse ano termino o 1º ano da faculdade de medicina.

Além de ter retomado os seus estudos, a empresária continua investindo no setor de empreendedorismo – é dona da Oro Newlife, marca de suplementos alimentares – e também apresenta seu próprio programa na COM Brasil TV (rede de televisão pública), onde debate sobre diversos assuntos e fala sobre sua superação como mulher.

"Eu gosto sempre de ensinar o que elas [mulheres em situação de vulnerabilidade] podem fazer para se defender", comenta. Atualmente um dos sonhos da empresária é criar uma fundação que desenvolva ações de responsabilidade social, especialmente pela defesa de mulheres vítimas de relacionamentos abusivos.

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A pandemia do feminicídio

Motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero, o feminicídio é o termo usado para se referir aos casos de homicídios contra mulheres. Em sua grande maioria, os criminosos são os próprios cônjuges e parceiros (relacionamentos amorosos).

No último ano, a cada seis horas e meia uma mulher morreu vítima do feminicídio. Em 2020 o Brasil contabilizou 1.350 casos, sendo 0,7% maior comparado ao total de 2019. Os dados foram apontados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O combate à violência doméstica e o feminicídio são uma só luta, e é preciso conscientizar cada vez mais que em briga de marido e mulher não só se mete a colher, como também denuncia. 

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*Ana Beatriz Gonçalves é jornalista e repórter do Papo de Mãe


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