Papo de Mãe
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Dia Mundial de Conscientização para a Dislexia – um verdadeiro fantasma nas escolas e famílias

Roberta Manreza Publicado em 10/10/2016, às 00h00 - Atualizado às 20h37

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10 de outubro de 2016


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Por Dra. Saada R. S. Ellovitch*, neuropediatra 

Crianças diferentes aprendem de maneiras diferentes. As variações do potencial de cada criança se devem a vários fatores, como a oportunidade e exposição ao ensino de qualidade, adaptação a fatores culturais, com metodologia eficiente, professores motivados e atualizados e fatores de ordem biológica.

Cerca de 10 % das crianças em idade escolar possuem alguma dificuldade em aprender. O transtorno específico de leitura ocorre em aproximadamente 6% da população. A taxa de abandono escolar para crianças e adolescentes com Transtorno da Aprendizagem gira em torno de 40%, dificultando sua adaptação social, empregabilidade e qualidade de vida da família e do entorno social.

“Os transtornos específicos de aprendizagem geralmente são caracterizados pela dificuldade na aprendizagem da leitura, escrita e/ou matemática e por dificuldades na linguagem oral, em crianças com nível de inteligência adequado para sua faixa etária, comprometendo a compreensão de textos e a assimilação do conteúdo escolar”, explica Dra. Saada R. S. Ellovitch, neuropediatra do Hospital Samaritano de São Paulo.

Existem vários tipos de transtornos de aprendizagem. Um deles é o transtorno específico da leitura, mais comumente chamado de dislexia.

A dislexia é altamente genética, ou seja, é de família. Quando olhamos mais de perto verificamos que alguns familiares tiveram diferentes graus de dificuldade na escola.

O termo dislexia vem do grego dis (difícil, prejudicado) e lexis ( palavra), significando transtorno específico de leitura.

Esses transtornos manifestam-se muito cedo na vida e não decorrem da falta de oportunidade de aprender, de deficiência intelectual (a inteligência é normal), sensorial ou de doenças adquiridas, por isso é muito importante que a identificação e o diagnóstico sejam feitos o mais rápido possível, pois um diagnóstico tardio pode afetar negativamente a vida desses indivíduos. Quanto mais cedo introduzirmos o processo de reabilitação e adequação de melhores estratégias em sala de aula, melhor o resultado final.

O que chama a atenção de pais e professores é a dificuldade em aprender a ler, escrever e compreender o que foi lido, principalmente no início da alfabetização.

Como apresentam inteligência normal, se esforçam para ler e vão tentando adivinhar parte das palavras, para compensar sua dificuldade real. No final da leitura, não conseguem compreender o significado real. O desempenho é melhor em palavras conhecidas, que a criança já esteja mais familiarizada.  Apresentam dificuldades também com rimas.

Segundo a Associação Nacional de Dislexia, a dislexia não é uma doença e sim uma disfunção, um funcionamento peculiar do cérebro para o processamento da linguagem. As atuais pesquisas, obtidas através de exames por imagens do cérebro, sugerem que os disléxicos processam as informações de um modo diferente. Pessoas disléxicas são únicas; cada uma com suas características, habilidades e inabilidades próprias. Os casos variam de leves, indicados como “leitores fracos”, moderados a disléxicos severos.

A dificuldade na leitura é caracterizada pela dificuldade na percepção e manipulação dos sons da fala, caracterizando a sua leitura com erros de reconhecimento das palavras, troca de letras, leitura silábica e sem entonação, dificuldade de compreensão de textos, escrita com erros de ortografia, inversão de letras e/ou sílabas.

Os profissionais da área da saúde têm o papel de realizar o diagnóstico da Dislexia e outros transtornos específicos de aprendizagem, sempre de forma interdisciplinar para que o resultado seja o mais assertivo possível. Os profissionais envolvidos são o neuropediatra, fonoaudiólogo, neuropsicólogo e psicopedagogos. O contato entre os profissionais é fundamental e indispensável, pois pode minimizar o erro diagnóstico e acelerar o tratamento adequado. Estes resultados devem ser compartilhados com a área da educação, a fim de promover melhor adequação da criança/adolescente, minimizando os danos futuros.

No funcionamento do cérebro, “o raio pode cair mais de uma vez no mesmo lugar”. O processamento da leitura e da escrita no cérebro acontece em regiões relacionadas também a outras funções, como a atenção, a memória  de curto prazo e as denominadas funções executivas (capacidade de se organizar e se mobilizar de forma organizada e persistente em direção a uma meta). Assim, o indivíduo com dislexia também pode apresentar outras disfunções do neurodesenvolvimento, outras dificuldades simultaneamente. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade/Impulsividade , de qualquer subtipo, ou seja, crianças muito agitadas e hiperativas, ou aquelas quietinhas por fora,  hipoativas, mas com a cabeça parasitada por pensamentos, “no mundo da lua”, podem ser encontrados em 30%  das crianças com dislexia.

Para acabar com mitos e preconceito, há necessidade dos profissionais da saúde e educação manterem processo de educação continuada. É fundamental a capacitação dos profissionais para atuar com estratégias reconhecidamente eficazes na literatura internacional.

*Dra. Saada Ellovitch é neuropediatra do Hospital Samaritano de São Paulo e do Hospital I. Albert Einstein, neuropediatra voluntária do ambulatório de distúrbio do aprendizado do Instituto da Criança. É especialista em distúrbio de aprendizado.

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Assista ao Papo de Mãe sobre Dislexia e Discalculia e ao Papo de Mãe sobre Dificuldades de Aprendizagem:




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