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Dependência emocional: quando o outro dita as regras da sua vida

Conversamos com uma especialista sobre o assunto para entender como identificar a dependência emocional e também os perigos dela

Ana Beatriz Gonçalves* Publicado em 17/07/2021, às 07h00

Você sabe o que é dependência emocional? Conversamos com uma especialista no assunto
Você sabe o que é dependência emocional? Conversamos com uma especialista no assunto

"Quando a gente não estava bem eu ficava completamente desesperada, sem ânimo, sem vontade de comer, sem vontade de fazer absolutamente nada na minha vida", lembra Gabriella Rodrigues, de 22 anos, sobre um dos seus primeiros relacionamentos, ainda quando era uma adolescente e estava no ensino médio.

Na época, ela notou que o término do seu namoro a afetava em todos os aspectos: na escola, em casa e até mesmo com os amigos. "Quando a gente estava bem, eu estava bem", compartilha, ela que hoje já sabe o que a fazia se sentir daquela forma: a dependência emocional. "De certa forma eu meio que tornava responsabilidade dele a minha felicidade".

Passado um tempo, Gabriella, que vive em São Paulo e é formada em Rádio, TV e Internet, foi buscar apoio para entender seus sentimentos na terapia. Com a ajuda de uma profissional, ela percebeu que precisava deixar de se sentir dependente em suas relações.

O que é dependência emocional?

Segundo explicações da Dra Vanessa Cesnik, Doutora em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo)e fundadora do O Corpo Explica, a dependência emocional nada mais é que um distúrbio capaz de tornar o outro com quem você se relaciona – seja família, amigo ou relação amorosa –, como o centro da vida. 

É quando você não coloca atenção, foco, força, naquilo que faz sentido pra você, justamente para priorizar e agradar outras pessoas. Colocando outras pessoas em primeiro lugar em vez de você mesmo". (VC)

Gabriella diz que por mais que tivesse a estabilidade de viver com os pais e ainda sem tantas preocupações, já que era apenas uma estudante do colegial, a dependência emocional no relacionamento a fez ficar triste, ansiosa e sem vontade de estudar, por exemplo. "Começou a atrapalhar minha rotina e os meus planos", afirma.

Hoje em dia com a maturidade, ela já conseguiu melhorar tal questão, no entanto, precisa ficar atenta para não voltar à estaca zero. "Nos últimos tempos, percebi que estava voltando aos poucos [a dependência] e voltei a procurar terapia".

Ainda de acordo com Vanessa Cesnik, a dependência emocional costuma ser um "modo automático", que muitas vezes é ativado sem que a pessoa perceba – o que a ciência entende por "inconsciente". "As pessoas possuem jeitos de 'funcionar' diferentes. Algumas delas têm mais ou menos tendência de adquirir esse distúrbio", explica.

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Qual o problema de depender do outro?

relacionamento
Relacionamentos amorosos e a dependência emocional

Além de não conseguir focar nas coisas que precisa, Gabriella Rodrigues lembra que a dependência emocional a fazia ter problemas com parentes e amigos, já que afinal, quando estava mal com o parceiro, acabava ficando mal com todo o resto. "Eu sentia que existia esse vínculo, mas não entendia como outra pessoa podia me ajudar", diz ela.

A psicóloga e fundadora do O Corpo Explica, um grupo de pesquisadores dos sinais corporais,  ressalta o perigo de colocar as escolhas pessoais na mão de outra pessoa. Sonhos pessoais e até mesmo profissionais, podem ficar à mercê da dependência emocional.

"Em uma situação como essa, a pessoa pode jogar fora seu sonho, ideias maravilhosas, oportunidades de trabalho ou relacionamentos. Ela joga fora oportunidades de ser feliz justamente para tentar agradar o outro, o que não faz sentido nenhum."

No caso de Gabriella, que aprendeu a lidar com a dependência ainda muito nova, conseguiu não deixar que o distúrbio a atrapalhasse suas conquistas. Hoje, recém-formada e empregada, ela até comenta que não tem como "deixar o outro tomar conta da sua vida". 

Quais são os principais sinais para identificar a dependência emocional?

Na opinião da especialista Vanessa Cesnik, é possível identificar sinais de que a dependência emocional pode estar tomando conta de alguém até mesmo através de sinais corporais.

"Você tem um sonho pra realizar e para e pensa: 'O que meu parceiro vai achar ou o que meu pai/minha mãe vai pensar?', você se questionando se vale a pena realizar esse sonho ou não de acordo com o que os outros vão achar, já é o primeiro sinal", comenta.

Quando identificada, qual é o primeiro passo para tratar a dependência?

"Tenho dependência emocional. E agora?". Esta parece ser a pergunta do milhão, porque na verdade, não existe fórmula mágica para tratar o distúrbio, segundo a psicóloga. No entanto, para ela, ter coragem de se colocar em primeiro lugar é crucial para entender como seguir adiante.

Pras pessoas que vivenciam esse tipo de problema, essa situação de se colocar em primeiro lugar dá medo. Tem gente que morre de medo de ficar sozinha, e também que morre de medo de cometer erros, e aí a diferença entre o que é certo e errado está na mão do outro. (VC)

Ter coragem e abrir mão do medo é o primeiro passo para se curar da dependência emocional, diz a especialista. 

Gabriella Rodrigues conta que quando começa a perceber que está deixando de fazer suas coisas por conta de alguém, faz de tudo para desviar atenção e foco do que está sentindo. "Eu me forço a trabalhar, estudar, e se eu percebo que não vou render muito, vou assistir uma série, comer alguma coisa gostosa, e por aí vai".

Outra saída que a jovem de 22 anos encontrou foi a tal da "lista de prioridades". Ela coloca no papel tudo que quer alcançar, focando todas as suas energias em si mesma. "Eu estabeleço o que eu quero para daqui a uns anos e começo a pensar: 'O que vai me ajudar a chegar lá e o que é secundário? Isso foi bem importante pra mim".

dependência emocional
Priorize seus sonhos e seus desejos!

Como lidar com alguém dependente, mas que não reconhece?

Vanessa Cesnik afirma: é preciso se conhecer, antes de tudo. Segundo ela, as pessoas não se conhecem, e acabam, muitas vezes, se tornando estranhas para si mesmas. "Quando você entende suas próprias necessidades, você enxerga estar vivendo em uma dependência".

Se na hora de tomar decisões você realmente coloca em primeiro lugar a opinião das outras pessoas ao invés daquilo que vai fazer bem pra você, isso já é um sinal de alerta muito grande". (VC)

Em casos de violência doméstica e relacionamentos tóxicos...

É comum em relacionamentos abusivos ou tóxicos que a dependência emocional se faça presente, seja por um ou os dois. Vanessa explica que existe uma razão para isso, e que ela pode ser encontrada em uma regressão, entendendo a infância da pessoa em questão.

"Em um relacionamento abusivo, por exemplo, de todas as pessoas que já atendi e estudei, a maioria viveu um trauma na infância. O que a gente percebe é que essa pessoa teve um trauma muito grande, ela acaba desenvolvendo tendências de buscar pessoas abusivas pra ela. Ela vai acabar escolhendo pessoas que vão leva-lá para um relacionamento tóxico", explica.

No caso de Gabriella, sua infância foi tranquila e regada de afeto. Entretanto, a ausência dos pais por conta do trabalho a fez despertar a necessidade de ter sempre alguém por perto.

"Por causa do trabalho meu pai ficava muito tempo longe, e minha mãe trabalhava o tempo inteiro. Eu estava o tempo inteiro sozinha e isso era chato. E quando eu tinha outro adulto cuidando de mim eu já achava mais legal, então de certa forma eu acho que isso acabou moldando essa necessidade de alguém, essa dependência de alguém para estar feliz", reflete.

Ainda segundo ela, que poucas vezes deixou de lado o acompanhamento psicológico, a sua infância acabou atrelando o ato de ficar sozinha com algo chato e tedioso, e por isso estar com alguém é bom e divertido.

Dra Vanessa Cesnik ressalta que sempre é possível chegar na "raiz do problema" para detectar a origem da dependência emocional. "Em uma conversa de duas horas a gente faz isso. Temos muitas informações corporais, como o corpo funciona, e quais os principais medos da pessoa, assim, é claro, como suas tendências comportamentais", finaliza.


*Ana Beatriz Gonçalves é jornalista e repórter do Papo de Mãe

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