Papo de Mãe
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Defender a segregação na educação é irresponsabilidade social

Mariana Kotscho Publicado em 15/01/2021, às 00h00 - Atualizado em 19/01/2021, às 10h30

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15 de janeiro de 2021


Artigo da colunista do Papo de Mãe, Thaissa Alvarenga, fundadora da ONG Nosso Olhar. Inclusão já!

Por Thaissa Alvarenga*

Meus três filhos são muito diferentes. Apesar de serem criados na mesma casa e pelos mesmos pais, eles têm personalidades distintas e seu próprio tempo de aprender e se desenvolver. Digo “os três” porque não é apenas o Chico, com Síndrome de Down, que tem desafios na escola, no esporte ou em qualquer outro tipo de aprendizado. As diferenças fazem parte de toda a nossa sociedade e aprender a lidar com elas é o que nos forma como seres humanos empáticos e respeitosos.

Recentemente, o presidente Jair Messias Bolsonaro declarou que crianças “menos inteligentes” e “atrasadas” prejudicam o aprendizado dos demais alunos da sala. Sua fala deixou claro o quanto a falta de conhecimento, de visão e de empatia, principalmente vindo de líderes governamentais, pode prejudicar a sociedade como um todo.

Afinal, qual é o papel da escola? Está longe de ser única e exclusivamente a parte pedagógica. É na escola que as crianças têm uma série de oportunidades de aprender com as diferenças e com os desafios impostos pela convivência e pela diversidade. É lá que ocorre um imenso trabalho de construção socioemocional e de multidisciplinaridade. Quando falamos em separar aqueles que são considerados “inteligentes” dos considerados “atrasados”, estamos impedindo um convívio saudável e uma troca riquíssima de conhecimentos e aprendizados.

Que tipo de seres humanos estamos formando ao ensinar nossos filhos que conviver com alguém diferente de você poderá prejudicá-lo de alguma forma? Cadê a empatia? Cadê o olhar diferenciado? Por outro lado, dar a nossas crianças a oportunidade de conviver com as diferenças, de aprender juntas, de ajudarem-se mutuamente e respeitarem o tempo do outro, é criar pessoas muito melhores e mais respeitosas.

Quando fez essa declaração, o presidente estava demonstrando apoio ao Decreto Federal nº 10.502, que prevê a segregação de alunos com deficiência e é um verdadeiro regresso na luta pela inclusão. Em dezembro, o decreto foi suspenso pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, e assim permanece até agora. Diante deste cenário, cabe a reflexão: de quem é a responsabilidade de lutar pelo fim deste decreto? Quem vai se beneficiar com escolas verdadeiramente inclusivas? Essa é uma luta de todos nós.

Os benefícios da inclusão vão além da pessoa com deficiência: reflete na sociedade como um todo e ajuda a proporcionar um ambiente saudável para o desenvolvimento físico, emocional e intelectual de todas as crianças, seja qual for seu nível intelectual.

Vamos juntos lutar pela real educação inclusiva, que vai além do ensino pedagógico dentro da sala de aula, mas que constrói seres humanos mais empáticos, respeitosos e que sabem lidar com as diferenças e aprender com elas.

Somos únicos e plurais e todos temos os mesmos direito e oportunidades. Devemos criar diálogos abertos para que a sociedade construa pontes firmes para a inclusão.

*Thaissa Alvarenga é fundadora da ONG Nosso Olhar




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