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Crianças na cozinha: a importância da participação dos nossos filhos no preparo dos alimentos

Autonomia e melhor qualidade de vida: com informação e conhecimento, as próprias crianças garantem o preparo das refeições e uma alimentação saudável

Maria Cunha* Publicado em 13/08/2021, às 07h00

A inclusão das crianças na cozinha é um incentivo à alimentação saudável
A inclusão das crianças na cozinha é um incentivo à alimentação saudável
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Qual a importância de apresentar os alimentos para os nossos filhos? Por que os pequenos devem ajudar no preparo das refeições? Quais são os benefícios dessas atividades para eles? 

Duda Guaraná, nutricionista, uma das criadoras do movimento NutriCuca e mãe de Mariah, de 9 anos, e Isabel, de 6, comenta o assunto, dando dicas e explicando as principais dúvidas sobre como incluir as crianças na cozinha.

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Os benefícios de incluir as crianças na cozinha e no preparo das refeições

De acordo com Duda Guaraná, a inclusão das crianças na cozinha é um incentivo, primeiro de tudo, à alimentação. “Eu brinco que antes de você chegar na cozinha, eu gosto muito de levar as crianças para o mercado, hortifruti, para escolher, para decidir o que queremos fazer. Muitas vezes, dependendo da idade, elas estão na parte de ser seletivas ou elas não querem muito experimentar, isso é estudado”, conta Duda. 

Assim, a nutricionista explica que quando levamos as crianças para a cozinha, elas ficam muito mais curiosas e até acabam se alimentando melhor por conta do preparo. Além disso, Duda Guaraná relata que os pequenos questionam muito e alimentos muito cotidianos, como frutas, na maioria das vezes já chegam picadas para a criança comer. Mas, ela explica que o ideal é, se ela é uma criança muito pequena, você descascar e pedir pra ela amassar, provar, mostrar para que tem um caroço. 

“Eu acho que tudo isso vai desenvolvendo não só a criatividade da criança do tipo da preparação que ela vai fazer, mas também vai deixar a criança mais aberta a provar. Quando a mãe está junto, isso são mais dois passos à frente, é o estímulo, o espelho. Aqui em casa, foi muito assim na introdução alimentar, foi a história da gente tentar ali, no dia a dia, oferecer e elas colocando a mão na massa mesmo”. 

Isso só contribui para que a autonomia da criança vá crescendo e ela entenda que, muitas vezes, você pode usar um alimento de diversas formas. 

“Eu acho que esse incentivo à cozinha só tem ganho: para a alimentação, para você provar, para essa criança não ser tão seletiva, para ela entender que às vezes ela não gosta de um suco, de uma fruta, de um vegetal, mas que ela vai gostar em um bolo, um purê. A nossa refeição, por ser muito rico o nosso solo, quanto mais incentivar, eu acho que é um ganho para todo mundo”, pontua a nutricionista Duda Guaraná. 
antes de você chegar na cozinha, eu gosto muito de levar as crianças para o mercado, hortifruti, para escolher, para decidir o que queremos fazer
Antes de chegar na cozinha, é importante a criança vá ao mercado ou hortifruti, para escolher e decidir o que quer fazer

O conhecimento e a participação das crianças sobre os alimentos

É muito importante se apropriar de informações para saber o que a gente está levando à mesa, o que nós estamos comendo. As crianças também precisam dessa informação. 

Duda Guaraná lembra que começou dando aula para crianças, em horário dedicado à produção de receitas e relata que, muitas vezes, a criança  pegava uma banana, por exemplo, e não sabia o que fazer, ela não sabia que precisava descascar, que podia comer. A nutricionista também retoma a importância de saber lidar com a situação, se a criança não gostava da fruta, ela sugeria fazer um bolo, alimento que as crianças tendem a gostar e pode ter a fruta misturada com outros ingredientes, como o chocolate. 

“Um outro sucesso é você fazer sucos, você espreme a fruta e o suco sai, eles ficam encantados. A regra aí era a seguinte: o que você escolhia para botar, você tinha que provar, e então a gente dava copos pequenos. As cores vão ficando lindas, o que não gosta de beterraba, põe beterraba no suco e resolve provar, aí vê que é doce, que descasca, o que tem dentro, se tem caroço, como é que é feito, e também diversifica”. 

Outro ponto importante aos pais é o seguinte: na hora de dar um alimento para o seu filho e ele falar “não gostei” ou recusar da maneira dele, se não falar ainda, fazendo careta, é preciso dar e insistir nesse mesmo alimento 10 vezes, para que a criança realmente escolha e decida se gosta ou não. O problema é que as mães tendem a falar “Não, ele não gosta de laranja, eu dei uma vez e ele recusou”, sem tentar novamente. Isso se agrava se essa mãe não gosta da fruta, porque ela já não come, então fica muito difícil o estímulo. 

Hoje, ainda tem outro processo realizado pelas escolas, que trabalham o desperdício e o uso do alimento: se eu descasquei, eu vou tentar comer, reaproveitar. Na alfabetização, para as crianças que não conseguem ler, tem vídeos das receitas, então elas criam também uma consciência de organização para aquela receita

Há também a história da refeição, o afeto no preparo, o ato de sentar à mesa depois que você produziu a receita

“Acho que tem tantos pontos aí que você consegue trabalhar dentro da alimentação, e você vê que como brasileiro, assim, a gente falando em dados aqui, a gente está obeso e desnutrido, então esse estímulo para as crianças é importantíssimo”. 

Em relação às questões de saúde, a nutricionista Duda Guaraná reforça a importância de uma alimentação saudável para o desenvolvimento. 

“Se você está com uma deficiência, seja assim, fica muito gripado, se machuca demais, o pé está sempre torcido, tá faltando, o corpo está te dando sinais de que ele precisa de mais alimentos, seja mais vitamina, mas proteína, mais mineral. Carboidrato é sempre mais difícil precisar, porque a nossa alimentação é muito à base de carboidratos e a criança, muitas vezes, gosta do açúcar”. 

Com isso, incentivar e dar informações para as crianças, a importância de, por exemplo, não ficar só com alimentos empacotados é de extrema importância. 

“Eu acho que a gente não pode perder a mão, a criança vai para uma festa, ótimo, ela vai estar com os amigos, vai tomar um mate, comer doce à vontade. Mas, no dia a dia, você colocar uma alimentação rica, isso faz a diferença não só para os ossos, mas para o foco da criança, para o entendimento, para o sono, para o humor”, diz a nutricionista Duda Guaraná. 

A responsabilidade dos pais na alimentação. De quem é a culpa? 

Duda Guaraná acredita que a culpa é sempre ruim, mas concorda que é importante que os pais sejam um incentivo e um espelho para os filhos. 

“Os pais estão ali para organizar e não é só o sentar à mesa, estar com eles, isso é maravilhoso, mas a criança, eu acho que ela precisa muito de horários. O que eu vejo muito erro é o seguinte: está na hora do almoço, mas a criança está comendo um pão, como é que daqui a uma hora vai conseguir fazer uma refeição completa e com fome? Ele já matou ali metade da vontade dele com um alimento que não completa o corpinho dele, só que ele não sabe disso, a culpa acaba não sendo dele”. 

Duda
A nutricionista Duda Guaraná

Por isso, também é preciso que os pais usem de inteligência emocional nesse momento, porque a criança tem uma rotina e, às vezes, viajando, o adulto decide pular refeições, comer muito no café da manhã, por exemplo. Mas, a criança come igual, seja no hotel, seja em casa e, depois de quatro horas, ela precisará almoçar. 

Sobre criar essa rotina, Duda Guaraná explica que os pais precisam tentar reverter possíveis comportamentos adversos e reforça que não adianta forçar a criança, porque acaba criando um atrito, a mãe fica exausta e vira um estresse. 

“Eu acho que não é por aí, é tentar incentivar nem que seja no lúdico, na brincadeira, você usando aquele alimento, falando dos benefícios. Quando já é adolescente, a gente fala muito do cabelo, da pele, desse lado estético que funciona muito também”, pontua a nutricionista. 

As dicas e recomendações para a criança começar na cozinha 

Duda Guaraná orienta que tudo depende da idade, dos dois aos quatro anos, é recomendada a “prática da mão no alimento”, ou seja, amassar a farinha com o ovo para fazer um cookie, amassar a fruta e identificar os alimentos. 

“A gente fazia muitas brincadeiras para a criança se familiarizar com o que a gente tem. Quando você vai ficando um pouco mais velho, você já começa usar uma faca sem ponta, conseguir quebrar o ovo. Eu sempre falo o seguinte: iniciar com receitas simples, não começa com bolo de camadas ou com um suco muito elaborado, e quantidades, de novo, um copo, faz um bolinho que seja menor, vamos ver se gosta”. 

Em relação aos pré-adolescentes, Duda Guaraná comenta que o primeiro alimento a ser preparado é brigadeiro na panela, então a ideia é buscar alternativas, como usar o cacau ao invés do chocolate em pó e colocar menos açúcar. 

“E, assim, você vai desenvolvendo muito mais a qualidade dos alimentos, mas eu acho que sempre com a supervisão de um adulto, olhando o gás, olhando a panela, porque quando você faz isso várias vezes, a criança entende o que é para ser feito, o que é o perigo, às vezes encosta numa panelinha mais quente e a criança já fica nervosa. Então, é sempre um incentivo contínuo, não tem jeito”.

Sobre a pandemia, a nutricionista acredita que o isolamento social também fez com que todos, crianças e adultos, aprendessem a se virar um pouco melhor na cozinha. 

O segredo é iniciar com receitas simples e ter sempre a supervisão de um adulto
O segredo é iniciar com receitas simples e ter sempre a supervisão de um adulto

O movimento NutriCuca

O NutriCuca é uma plataforma de consciência alimentar, só que são conversas curtas com um robô sobre alimentação, então é possível falar desde sobre o intestino, até sobre chocolate, imunidade, sono. 

“É onde você conversa para saber o  quanto você entende daquele assunto. Você entra no nosso site que é o https://nutricuca.com.br e lá você tem esse bate-papo, só que todas as informações do robô são feitas por nutricionistas, então é respaldado, com artigos científicos”. 

Caso você queira se aprofundar mais, no fim, há  o ‘Saiba mais’, em que estão disponíveis artigos, PDFs e sites especializados sobre cada assunto.

“Informação é tudo, então você fica com as rédeas de como fazer para melhorar o intestino, ter mais foco, ficar menos ansioso, sua imunidade ficar melhor, às vezes até para ter mais disposição para um exercício, ou mesmo saber informações sobre um chocolate, o que é melhor o chocolate amargo ou branco, então são muitas informações”

A importância de uma alimentação saudável para o futuro

“Para mim, é 100%. Eu acho que é diferente de ser xiita, não comer nada e ser super restritivo, não é isso. Eu gosto de alimentação rotativa, onde você tem muitas cores, roda nas proteínas, escolhe diferentes alimentos ao longo da semana”, explica a nutricionista Duda Guaraná. 

A nutricionista lembra que no Brasil é um privilégio ter acesso aos alimentos e se alimentar bem, mas reforça quetemos um solo muito rico, então o erro está nas nossas escolhas. 

“A gente está indo mais para os alimentos industrializados, onde a gente poderia dar lugar ao nosso bom e famoso arroz com feijão e saladinha. Eu acho que a base é não complicar, mas você diversificar, comer bem e fazer boas escolhas, é o básico e a gente está perdendo um pouco isso para lanches, sucos açucarados, e a criança vai nessa onda, a gente tem limites de obesidade aumentando muito, então é preocupante”, conclui a nutricionista Duda Guaraná. 

*Maria Cunha é repórter do Papo de Mãe 

Assista à entrevista completa de Roberta Manreza, do Papo de Mãe, com Duda Guaraná 

**O Programa Nestlé por Crianças Mais Saudáveis é uma iniciativa global da Nestlé, que assumiu o compromisso de ajudar 50 milhões de crianças a serem mais saudáveis até 2030 no mundo todo. Desde 1999 foram beneficiadas mais de 3 milhões de crianças no Brasil. 

Com o lema “muda que elas mudam”, a partir de uma plataforma de conteúdo, o programa estimula famílias a adotarem hábitos mais saudáveis e ainda promove um prêmio nacional que ajuda a transformar a realidade de 10 escolas públicas por ano com reformas e mentorias pedagógicas. 

Conheça mais no site do programa

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