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Conheça Leandro Ziotto, pai afetivo do Vini e fundador da plataforma 4daddy

Empreendedor social, Leandro dá detalhes sobre sua configuração familiar, o ato de "paternar", a economia do cuidado, e como criou a 4daddy

Maria Cunha* Publicado em 10/02/2022, às 08h00 - Atualizado às 11h50

Leandro Ziotto, pai afetivo de Viniciu e fundador da plataforma 4daddy - Arquivo de Leandro Ziotto
Leandro Ziotto, pai afetivo de Viniciu e fundador da plataforma 4daddy - Arquivo de Leandro Ziotto

Leandro Ziotto é o fundador da 4daddy, plataforma de produção de conteúdo e conhecimento sobre parentalidades, masculinidades e economia do cuidado. Como missão, a 4daddy busca apoiar a sociedade, as empresas e o próprio poder público no desenvolvimento de ações e iniciativas que visem equidade de gênero, uma educação parental, impacto social, o combate ao machismo e à violência contra crianças, mulheres e adolescentes.

Mas, antes de qualquer coisa, Leandro é pai afetivo de Vini. É assim que empreendedor social se apresenta, pois não é pai biológico, nem adotivo, de Vinícius, hoje com 13 anos. 

“Eu o conheci quando ele tinha 3 anos de idade. Então, eu até brinco que ele tem mais tempo comigo do que ‘sem migo’ e ele é meu filho afetivo, porque ele é fruto da primeira relação da minha ex-esposa”.

Assista à entrevista completa com Leandro Ziotto

Mesmo separado desde 2016 de Mariana, mãe biológica de Vinícius, o fundador da 4daddy ainda mantém os cuidados afetivos do filho, se autodenominando pai afetivo. 

“O Vini tem pai e mãe biológicos, pai afetivo, madrastas, padrinhos, madrinhas, avós e tios que cuidam e que fazem essa rede de apoio. Eu fico muito feliz e gosto de falar da minha configuração familiar, eu acho que materializa um ditado africano que eu gosto muito e que fala que precisa de toda uma aldeia para se criar uma criança. O Vinícius tem o privilégio de ter essa aldeia”, conta Leandro. 

O empreendedor também cita uma fala da psicanalista Vera Iaconelli, que defende que, com a rede de apoio, as crianças têm contato com pessoas diferentes, de gêneros, classes e características também distintas, o que enriquece o desenvolvimento cognitivo e socioemocional da criança. 

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Além disso, Leandro Ziotto também afirma que falar sobre sua família é uma forma de desmistificar e acolher todos os tipos de configurações familiares. Ele ainda revela gostar muito de um conceito de família da UNICEF, que é parceira da 4daddy e denomina família como um grupo de adultos dispostos a criar e educar uma criança, independente da ligação sanguínea ou parentesca dela. 
“Eu acho que isso mostra que nós, quando falamos de parentalidadeS, precisamos falar no plural e com S maiúsculo para poder acolher e visibilizar todas as configurações familiares e levar os devidos recortes sociais, de classe, de raça e de gênero. Senão, a gente vai correr muito risco de falar de parentalidades hegemônicas e invisibilizar outras formas de famílias, e eu acho que todas merecem respeito, dignidade e visibilidade na sua forma de existir e de criar pessoas”. 

Como surgiu a 4daddy?

Para Leandro Ziotto, Vinícius é parte do seu currículo, porque, se hoje trabalha e estuda paternidades e masculinidades, é graças a ele. 

“Eu estaria mentindo pra vocês se eu falasse que, desde criança, o meu sonho é trabalhar e ser pai. Eu já quis ser jogador de futebol, ser grande empresário, astronauta, sei lá, integrante dos X-Men, dos Power Rangers. A paternidade nunca foi muito atrelada à minha educação, que eu acho que é a educação geral em média de nós, homens”, confessa.

Entretanto, a paternidade se tornou uma reforma íntima do empreendedor, que acredita estar sempre mudando. Segundo ele, a 4daddy nasceu numa terça-feira, às 4 horas da manhã, quando Mariana e Leandro moravam juntos, Vinícius tinha 4 anos e estava com problemas para dormir.

"No auge do meu desespero, vários dias sem conseguir dormir, apelei pro Google. O Vinícius chorando de um lado da cama, eu praticamente quase chorando desesperadamente do outro. Abri meu laptop e escrevi assim: Como colocar uma criança de 4 anos pra dormir? Ele me deu mais de 30 milhões de respostas e eu fui, bravamente, até a quinta página do Google e não encontrei nada pra nós, homens”. (Leandro Ziotto)

Tudo que o fundador da 4daddy encontrou foram matérias e artigos ruins e mal feitos ou publicações  direcionadas para as mulheres. O empreendedor dá detalhes e exemplifica as manchetes que encontrou: “5 dicas para ajudar as mães a colocar os seus filhos para dormir”, “Mãezinha, supere a falta de sono do seu filho” e assim por diante. 

”Aquilo me intrigou demais, porque, pela primeira vez, eu tive a noção de entender ou me sentir inserido nesse machismo estrutural, nesse patriarcado que a gente é educado e criado. Eu percebi que nós não naturalizamos os homens a exercer essa função. Nessa madrugada, eu tive o primeiro estalo, o despertar necessário pra eu estudar e trabalhar com o que eu faço hoje”. 

A partir disso, Leandro passou a estudar e entender os pré-conceitos e as amarras sociais e morais que existem em relação a criar e educar crianças, a masculinidades, e a gênero. Hoje, ele pontua que, em uma sociedade onde os homens fazem parte do problema, eles também podem fazer parte da solução. 

“Vivemos numa sociedade cultural, social, e estruturalmente machista, que faz nós caminharmos para naturalizar as mulheres a ocuparem esse papel do cuidado. O meu papel, como fundador da 4daddy, é valorizar a economia do cuidado, falar sobre paternidades, formas de performar uma masculinidade mais saudável e incluir o homem na conta. Será impossível nós alcançarmos algum tipo de equidade de gênero, social ou, inclusive, racial, se nós, homens, não ocuparmos o espaço doméstico”. 

O que é ser pai? 

Na opinião de Leandro Ziotto, paternidade ou ser pai é um título, já que você pode ser pai: biológico, afetivo, adotivo, do coração, de mentirinha ou emprestado. Por isso, o empreendedor social defende o uso da palavra “paternar”.

“A palavra 'paternar' é verbo e eu acho que ser pai é sair um pouco desse substantivo da paternidade e exercer o verbo do exercício diário. Ser pai é um exercício exaustivo, cansativo, frustrante, mas também extremamente prazeroso, alegre, feliz, afetivo e cheio de amor. Eu acho que quando você se torna pai, você aprende ensinando e ensina aprendendo, é um exercício contínuo de afeto e de troca com a criança, além de, talvez, ser um dos principais gatilhos de transformação de nós homens”. 

O empreendedor social ainda argumenta que não gosta de romantizar a paternidade e a maternidade, o que pode levar a armadilhas. Segundo ele, quando romantizamos o ato de ser mãe, colocamos a mulher em um lugar de mãe guerreira, que tem de ser sobrecarregada mental, emocional e fisicamente nesse papel, quase que exclusivo, de cuidar. Ao mesmo tempo, com a romantização da paternidade, o mínimo, dividir responsavelmente o cuidado de uma criança, é normalizado.

Quem é o Leandro antes e depois da paternidade?

”A paternidade é aquela reforma que nunca acaba, porque, quando você é pai de uma criança pequena, você tem outros afetos, desafios e aprendizados. E aí o filho cresce, se torna pré-adolescente e são outras alegrias, frustrações e medos. Aí, se torna adolescente, depois adulto. Eu sou um Leandro muito melhor do que eu fui ontem e do que eu fui no passado”, diz o empreendedor. 

O fundador da 4daddy ainda conta que a paternidade o ensinou que, enquanto a reforma e a revolução das mulheres são para fora, de conquistar espaço, fala e lugares, a revolução dos homens será interna, com o reposicionamento nas relações sociais, familiares e de trabalho. 

“A gente ainda tem uma herança de uma paternidade muito arcaica, muito antiquada. Eu brinco que a paternidade que nos foi ensinada é a paternidade dos 3 Ps: prover, proteger e procriar. E ela é muito limitante”. 

Por ser pai afetivo de Vinícius, Leandro afirma que, hoje, tem muito mais consciência social, de classe e política. Isso o fez compreender que a paternidade é também um ato social e político, e que o cuidado é uma tecnologia que pode ser ensinada e aprendida.

“Cuidar do Vinícius e tê-lo na minha responsabilidade, principalmente por ser um menino, fez eu refletir sobre o que não fazia mais sentido pra mim no passado e, mesmo assim, eu continuava performando, e o que começa a fazer novos sentidos prazeres, medos, angústias e desafios. O cuidado é o pilar central para a manutenção da nossa sociedade, sem cuidado, não há sociedade ou economia que pare de pé".

Outro ponto levantado pelo fundador da 4daddy é que é preciso aprender que os filhos são pessoas e não objetos. Ele justifica com a fala de um amigo, que afirma que a injustiça com a primeira infância, com as crianças, é uma das mais invisibilizadas, pois as pessoas tendem a não enxergá-las como sujeitos de direito, de autonomia. 

“Eu comecei a olhar o meu filho de outra forma. Uma coisa que eu sempre tento passar pra outros homens é que a paternidade não precisa ser heróica, não precisa ser valente, não precisa ser agressiva e violenta, porque a violência é uma ferramenta que nos foi dada, a gente aprende e é educado que talvez seja a ferramenta mais eficaz, ou talvez a única que a gente pode usar para solucionar o nosso problema, seja ele de trabalho, pessoal ou familiar”, explica Leandro. 

O empreendedor social conclui reforçando a importância do exercício da humildade na paternidade e de sempre aprender, pois é um tema que nunca vai se esgotar, sempre é possível descobrir novas formas de se relacionar. Além disso, Leandro Ziotto insiste na importância dos homens terem uma participação ativa na criação dos filhos. 

“Se o homem exercer esse papel de cuidado, todo mundo ganha. A criança ganha, a mãe ganha, as mulheres ganham e nós, homens, ganhamos também. Exercer essa paternidade de forma participativa e cuidadora tem impactos positivos na nossa saúde física, mental e emocional, no nosso desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais, que são tão exigidas, hoje, no mercado de trabalho. Então, homens, ocupem esse lugar!”, finaliza. 

*Maria Cunha é repórter do Papo de Mãe

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