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» SAÚDE DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Como proceder em situações específicas quanto a saúde de crianças e adolescentes ?

O livre-arbítrio na saúde, um direito em muitos momentos e, em outros, uma ostensiva situação de risco individual e coletiva

Edmo Atique Gabriel* Publicado em 30/03/2022, às 18h02

As crianças e adolescentes ainda dependem do poder decisório dos mais experientes
As crianças e adolescentes ainda dependem do poder decisório dos mais experientes
A vida segue seu curso pautada por esta constante liberdade dada ao ser humano, após atingir sua maturidade física e mental, propondo a si mesmo escolhas, ora acertando e progredindo, ora sendo engolido por sua presunção e frágil autoconfiança. No entanto, as crianças e adolescentes ainda dependem totalmente do poder decisório e da sabedoria dos mais experientes.
No âmbito da saúde, não faltam circunstâncias que colocam o ser humano nesta condição inadiável : ter de decidir. O que nutre este poder decisório é um conjunto de elementos, como perfil de personalidade, questões culturais, questões religiosas e muitas vezes certo grau de desconhecimento. Em alguns momentos, o ser humano toma suas decisões na dependência de ter vivenciado ou não determinada situação - se ele enfrentou determinado sofrimento, a humildade chega rápido e ele passa ponderar mais; se nada de importante aconteceu com ele, pode ser que ele ainda cultive as dúvidas e a descrença.
Para algumas decisões, especialmente quando a saúde de crianças e adolescentes está em jogo, os limites podem ser amplos ou restritos, com ou sem impacto na vida individual e coletiva, comprometendo pouco ou muito outro valor sagrado que dificilmente se dissocia da saúde - a segurança.

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Vejam situações conflitantes, corriqueiras, que requerem tomada de decisão com o devido impacto e consequências. Eis o livre-arbítrio na saúde, um direito em muitos momentos e, em outros, uma ostensiva situação de risco individual e coletiva.

Situação 1

Uma criança ou adolescente é diagnosticado com um determinado câncer e precisa ser submetido a algumas modalidades terapêuticas, como quimioterapia e radioterapia. Entretanto, os pais  não aceitam este tipo de tratamento e optam por seguir outros protocolos, alguns sem comprovação científica. Pode ser que você consiga ter bons resultados e pode ser que você literalmente encurte sua sobrevida. Problema da pessoa que fez esta escolha ? Risco para os familiares desta pessoa ? Sorte de ambos os lados se tudo der certo ? O livro-arbítrio na verdade é um constante permear por dúvidas e riscos.

Situação 2

Uma acadêmica de medicina, ainda adolescente, que debocha ou ironiza acerca da morte de uma pessoa, associando sua insatisfação por ter de atender uma pessoa e não poder dormir durante seu plantão. Podemos encarar isto como uma liberdade de expressão ? Não haveria limite algum para tal conduta ? Vejam que podem  existir limites acirrados para os próprios limites de um livre-arbítrio.

Situação 3

Um adolescente  portador de uma doença infectocontagiosa, passível de transmissão sexual, e manter sua vida sexual ativa, sem a devida proteção e sem buscar orientações preventivas para não disseminar esta infecção. Qual o limite para este livre-arbítrio ?

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Situação 4

A busca incessante pelo corpo perfeito pode extrapolar nos efeitos . O uso inadvertido de anabolizantes por parte dos adolescentes, tratamentos estéticos ilimitados, procedimentos feitos por profissionais sem a devida habilitação e o descaso quanto a realização de exames preventivos compõem o cenário típico de um livre-arbítrio que se aproxima da tragédia. Podemos simplesmente “achar” que daria tudo certo ? Fomos vítimas simplesmente do azar fortuito ? O livre-arbítrio implica também em questionar mais antes de decidir, buscar referências e informações, desconfiar daquilo que parece ser muito rápido e fácil.
Livre-arbítrio na área da saúde dificilmente se dissocia da segurança. Por questões de segurança individual e coletiva, muitas vezes é mais prudente aceitar as tendências, respeitar a vida de outras pessoas e ter a consciência sempre tranquila, mantendo seus valores mas flexibilizando sua conduta. 
O livre-arbítrio  é  um privilégio do ser humano , uma expressão de liberdade inquestionável. A flexibilização deste livre-arbítrio, principalmente quando a temática em discussão é a saúde de crianças e adolescentes , seria uma forma de ajuste de conduta diante de uma circunstância, não implica necessariamente em mudança radical de valores e crenças.
No caso da vacina para a COVID-19, por exemplo, não significa que você corrompeu seus  valores e crenças ao aceitar tomar a vacina; na verdade você ampliou mais sua visão, considerou a coletividade em sua decisão e agiu temporariamente em prol daquilo que tem se mostrado ser mais eficaz na contenção da pandemia. Você que toma a vacina mesmo não concordando totalmente, continua sendo a mesma pessoa, você nao está traindo sua consciência. Você apenas está demonstrando que o livre-arbítrio existe, continua vigente na sua vida e que livre-arbítrio também incorpora flexibilização e adaptação em determinadas circunstâncias.
Dr. Edmo Atique Gabriel
Dr. Edmo Atique Gabriel
*Dr. Edmo Atique Gabriel é cardiologista, cirurgião cardio vascular e nutrólogo. @edmoagabriel

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