Papo de Mãe
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Como garantir férias seguras para as crianças?

Prevenção é fundamental para garantir as férias seguras das crianças e sem acidentes

Damaris Gomes Maranhão* Publicado em 10/01/2022, às 14h07

Criança precisa de supervisão sempre
Criança precisa de supervisão sempre

As crianças estão de férias, portanto sob cuidados dos familiares, mas é preciso alertá-los sobre prevenção de acidentes - já que eles ocorrem mais no ambiente doméstico do que na escola. E para tanto, é preciso aprender com a experiência refletindo sobre as causas dos principais acidentes que ocorrem em cada faixa etária.

Uma estratégia pode ser o emprego da Árvore de Causas, um método desenvolvido para analisar e prevenir acidentes no ambiente de trabalho. A partir dos acidentes que ocorreram no passado na família, ou noticiados na mídia, podemos analisar o contexto de sua ocorrência a partir da seguinte questão: o que foi necessário e suficiente para que o acidente ocorresse? Como podemos evitar outros semelhantes? 

Começando pela minha própria experiência materna, lembro que meu filho que tinha na época uns dez meses, estava comigo sobre minha cama quando atendi o telefone. Logo após, devido a minha distração, ele engatinhou sobre a cama e caiu. Eu o socorri, acalentei e ele parou de chorar.

Como mãe e enfermeira observei seu corpo e não havia nenhuma lesão aparente, ele almoçou bem e depois dormiu no berço. Eu trabalhava no período da tarde e ele ficava sob cuidados de uma babá. No meio da tarde ela me ligou pois percebeu que ao acordar ele ficou em pé no berço, mas chorava ao estender o braço. Fui para casa e levei-o ao médico que constatou que meu filho havia fraturado a clavícula. O que foi necessário e suficiente para que ocorresse este acidente? Eu deixá-lo solto sobre a cama de casal, onde permaneci próxima, mas sem contê-lo ao atender o telefone. 

Assista ao Papo de Mãe sobre férias seguras

Já aprendemos com a experiência e até por isto os pediatras e outros profissionais de saúde contraindicam os "andadores para bebê" (a venda é proibida no Brasil desde 2013). Em 2006, a Comissão de Proteção ao Consumidor dos EUA, em cooperação com a empresa Mattel anunciou o recall de bonecas e acessórios da boneca Polly com imãs, devido a acidentes de crianças que os colocam dentro da orelha ou na boca e deglutem acidentalmente causando aderência de alças intestinais, perfurações, necessitando até de cirurgias.

Entretanto, ainda se pode observar numa rápida pesquisa no Google que há vários anúncios de jogos e brinquedos magnéticos. Em maio de 2021, médicos britânicos alertaram que imãs comumente encontrados em brinquedos têm o potencial de causar acidentes graves. Na ocasião houve um aumento de cinco vezes no número de casos em que as crianças precisaram de internação hospitalar após engolir esses objetos. Os especialistas dizem que nem sempre estes brinquedos vem com alertas deste risco.

Da mesma forma é fundamental atenção especial com a oferta de determinados alimentos como salsicha, uvas, jabuticabas, tomate cereja e outros que podem obstruir a orofaringe, engasgando criança que ainda não desenvolveram as habilidades de mastigação e deglutição como os adultos. Estes alimentos precisam ser fatiados de forma que não causem engasgo. O mesmo se aplica aos cuidados com balões de látex, as “bexigas”, que quando estouradas ou murchas podem ser deglutidas e sufocar uma criança.

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A Pipa só deve ser usada em ambientes abertos (evitar lajes) sem rede elétrica próxima, pois pode enroscar no fio e provocar descargas elétricas com consequências graves ou fatais.

Uma bacia ou balde contendo um pouco de água pode afogar um bebê que escorrega e mergulha a cabeça e não consegue sair, como ocorreu com o irmão do famoso cantor Ray Charles.  

Sabemos também que cordões das cortinas podem enforcar uma criança que se enrola nele sem querer ou brincando. Já temos registros de tragédias por quedas de janelas, sacadas e escadas sem proteção. O acesso livre ao elevador levou um menino a uma área sem proteção onde caiu e morreu, enquanto sua mãe, empregada doméstica da família dona do apartamento, levava os cães da patroa para passear (caso em Pernambuco).  

Recentemente, uma amiga se queimou ao esbarrar e derrubar a cafeteira que estava na beira da bancada da cozinha, ao se virar rápido para  pegar o pó de café.  Cresci com minha mãe nos alertando sobre a importância de manter as panelas e recipientes com o cabo voltado para dentro e afastados da borda do fogão, pia ou outro suporte, devido ao risco de esbarrarmos neles e nos queimarmos. Ela também nos alertava para não correr comendo o lanche ou fruta, nem com o garfo ou tesoura na mão.  

No início de janeiro, a imprensa noticiou a tragédia que atingiu a família de uma menina de dois anos que morreu devido à septicemia (infecção generalizada) em consequência de um ferimento na vulva causado pela queda da bicicleta que ganhou de Natal. Outro acidente que resultou em internação por traumatismo craniano de um menino de sete anos devido à queda de bicicleta em Sobral, no Ceará. Estes dois casos nos alertam para a importância de uso de vestimentas protetoras, capacete e sapatos que aumentem a proteção das crianças ao andar de bicicleta, além da importância da avaliação médica imediata e acompanhamento das crianças acidentadas.

Finalizando, concluo que a sociedade, os produtores de brinquedos, os pais e outros familiares precisam avaliar o risco e beneficio para o pleno desenvolvimento, brincadeiras, lazer das crianças de determinados espaços, objetos e brinquedos.

E é preciso também que as cidades e seus arquitetos e engenheiros considerem que as crianças têm o direito de estruturas, espaços, mobiliário e brinquedos seguros e adequados a cada fase.

Damaris
Damaris Gomes Maranhão

*Damaris Gomes Maranhão é enfermeira Especialista em Saúde Pública UNIFESP/USP, Dra em Ciências da Saúde pela UNIFESP, Professora do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Consultora do CEDUC e Formadora no Instituto Avisalá, Mãe do Bruno e da Melissa, avó da Clara.

damarisgomesmaranhão@gmail.com

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