Papo de Mãe
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Caso Maristela Just: 21 anos de impunidade

pmadmin Publicado em 18/11/2010, às 00h00 - Atualizado às 13h26

18 de novembro de 2010


No Papo de Mãe deste último domingo, contamos com a presença de Nathália Just, uma jovem guerreira que há 21 anos luta, juntamente com seu irmão, para prender o assassino de sua mãe. O mais chocante de tudo é que o assassino é seu próprio pai, o comerciante José Ramos Lopes Neto, 47 anos, foragido da justiça.A seguir conheça um pouco da história da família JUST extraída do blog: http://www.casomaristelajust.blogspot.com/   – Depoimento a Fábio Guibu – Recife/PE.
Nathália Just
Em 1989 eu tinha quase 5 anos e meus pais já estavam divorciados havia dois anos. Ele não se conformava com a separação e, numa noite, foi à casa dos meus avós, em Piedade [um bairro de Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife], e fez o que fez. Ele matou minha mãe e atirou em mim, no meu irmão – que tinha dois anos – e no meu tio. Levei um tiro que atravessou o meu braço direito. Meu irmão levou um tiro transfixante na cabeça que afetou o lado esquerdo do corpo dele. Meu pai só não matou todos naquele dia porque Deus não deixou. Passei 48 horas com risco de morrer. Meu irmão ficou 20 dias no hospital. Passamos por várias cirurgias e muita fisioterapia para nos recuperar. Tivemos acompanhamento psicológico até a adolescência – eu, até os 12 anos, e o meu irmão até os 15.A família da minha mãe foi quem nos apoiou e nos criou. Cresci com meus avós, e meu irmão, com nossa tia Marcela. Vovó contava que minha mãe tinha virado uma estrelinha. Me mostrava Vênus no céu e dizia: “olha, a sua mãe está lá”. Com o tempo, entendi que ela havia morrido e que nunca mais voltaria. O apoio familiar foi muito importante para eu suprir essa ausência. Eu tive o amor de mãe graças aos meus avós e meus tios, que viveram para nós. Com todo o sacrifício deles, estudamos sempre nas melhores escolas particulares. Nada nos faltou. Eles nos preservaram e, por isso, tive uma vida feliz, sem tumulto de imprensa, sem advogado, delegacia. Isso não fez parte da minha infância e adolescência nem do início da fase adulta. Minhas lembranças dessa época são as viagens, os primos. Mas eu não contava para todo mundo o que tinha acontecido. Tinha vergonha. Às vezes, as pessoas diziam que eu só falava dos meus avós e tios e perguntavam: “cadê a tua mãe, cadê o teu pai?”. Eu dizia que eles haviam morrido em um acidente de carro ou em um assalto. Dizia que a pessoa foi presa e encerrava o assunto. Um dia, discuti na escola, e uma coleguinha disse que meu pai era assassino. Eu saí da sala, chorei muito, e meu avô teve que me buscar.Em 2001, saiu nos jornais que o julgamento do meu pai seria naquele ano. Saiu a história toda, o meu nome e o do meu irmão. Então aquele escudo caiu. Escancarou-se ali uma realidade que a gente não gostava de mostrar. Tive de conviver muito tempo com essa vergonha que não era minha, mas que sentia por conta de o país, o Estado, não ter tomado as providências no caso. Se não houvesse a impunidade, por si só o assunto se encerraria – preso em flagrante, o pai de Nathália ficou um ano preso e depois foi solto.Hoje, eu tenho 25 anos, a idade que a minha mãe tinha quando morreu, e posso falar. Com 5 anos, não. Por mais que eu falasse, o meu choro ninguém entenderia. A Isabella Nardoni também tinha cinco anos quando o pai dela a matou, segundo a Justiça. Mas Deus quis que eu vivesse. Eu sou uma Isabella Nardoni que sobreviveu para falar. Minha esperança é de que a Justiça prevaleça e que o réu pague pelo que fez. Esperamos 21 anos, e agora eu quero um ponto final. Eu quero que esse livro se feche, porque páginas e páginas já rolaram. Considero esse período uma pausa para o início do fim.” Nathália Just—
José Ramos Lopes Neto
condenado e foragido 



Em 01/06/2010 o assassino foi a júri popular em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco e condenado a 79 anos de prisão. Entretanto, está foragido da justiça há mais de 5 meses. Se você souber do paradeiro ou de alguma informação que ajude nas buscas ligue para o Disque Denúncia, telefones: (81) 3421.9595, para o Recife e Região Metropolitana, ou (81) 3719.4545, no interior.Vamos ajudar a Nathália e seu irmão a fazerem JUSTIÇA!!!DICA DE HOJE:MARIA DA PENHA LANÇA LIVRO NA CASA COR CEARÁ 2010 Na próxima sexta-feira (19/11), acontece na Casa Cor Ceará 2010 o lançamento do livro “Sobrevivi, Posso contar” de autoria de Maria da Penha, publicado pela editora Armazém da Cultura. O evento será realizado na Praça Lúcio Costa, a partir das 19h. Para maiores informações: http://www.casacorceara.com.br/.