Papo de Mãe
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Aplicação do treinamento da Meditação no controle do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade

pmadmin Publicado em 05/03/2012, às 00h00 - Atualizado em 19/09/2014, às 19h36

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5 de março de 2012


Por Rubens Maciel*O homem, adulto ou criança, sempre sofreu com a dificuldade em manter sua atenção focada e em conter sua impulsividade, entretanto, as condições sociais da sociedade atual acentuam bastante estas disposições. Em nossa compreensão estas tendências estão também relacionadas com o sentimento de insatisfação que faz parte da natureza humana. Assim, a principal busca do homem é por felicidade, seja de forma que implique projetos éticos ou de conforto e segurança, ou na forma do prazer imediato, consumista, egoísta e inconsequente.

Há décadas atrás, em um mercado de produção, o homem continha seus desejos e impulsos, visando criar um patrimônio para a segurança de sua família. Os laços sociais e familiares eram mais estáveis e o sentimento de inclusão e apoio era mais intenso. Quando a sociedade passa para o modelo de consumo, a nova ordem é buscar a satisfação dos desejos da forma mais imediata possível e a competição e o egoísmo se intensificaram. O indivíduo passa a identificar a felicidade nos objetos externos, na posse e no seu status social e profissional. A publicidade cria slogans como “venha ser feliz”, associado a uma rede de lojas de departamentos. As instituições, como a Igreja e a política caíram em descrédito debilitando nossa confiança nos antigos valores, e nos parece que o individualismo e o hedonismo ascenderam aos valores mais buscados na atual sociedade de consumo.

O sentimento de solidão e desamparo típico das grandes metrópoles pode ser verificado, entre tantos outros exemplos, no recente fenômeno estudado nos EUA sobre o sentimento de se sentir excluído denominado FOMO (fear of missing out). Jovens e adultos que ficam freneticamente conectados em suas redes sociais ou celulares procurando saber o que seus amigos estão fazendo, sempre com o medo de estarem perdendo o melhor que possa estar acontecendo naquele momento.

Em uma sociedade que adota como slogan “tempo é dinheiro” (tempo não é dinheiro, tempo é o tecido de nossas vidas), a busca por informações e competências se tornou obsessiva. As crianças que por sua natureza necessitam de um tempo maior para elaborarem a compreensão do mundo, são levadas desde cedo a fazer cursos de línguas, informática ou esportes acreditando que deverão preparar-se para um mundo de competição feroz. Os adultos também são estimulados a possuírem varias competências para manterem seus empregos. Todas estas condições propiciam uma mente inquieta com forte tendência para fugir de nosso controle, alem de aumentar nosso estresse crônico. 

Este cenário é o pano de fundo onde vivem os adultos e principalmente as crianças, que por falta de capacidade elaborativa, assumem este modo de vida de forma não crítica e como sendo a única forma de vida. Vivemos uma vida com pressa, competitiva e individualista, onde os valores são externos a elas, onde não se estimula a introspecção e autoconhecimento, onde não há mais confiança em valores éticos e espirituais.

Estão dadas as condições para a intensificação dos hábitos que estimulam as tendências à distração e a agitação assim como podem agravar os sintomas de quem está diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade.

A indústria farmacêutica.

A indústria farmacêutica assumiu o lugar daquela que tem as respostas, químicas, fáceis e imediatas, para as dores da existência. A popularidade das drogas para ansiedade, depressão e o Transtorno do Déficit de Atenção (TDAH) “parece” representar um pequeno preço a ser pago para conter os sintomas das doenças de fundo emocional. Esta abordagem materialista é muito rentável para a indústria farmacêutica, mas profundamente debilitante para os indivíduos que se tornam dependentes dela. Não queremos dizer que estas medicações não sejam uteis, especialmente para combater os sintomas mais severos, mas eles não curam, simplesmente aliviam os sintomas, podendo levar a dependência física e psíquica. Portanto quanto mais cedo pudermos oferecer aos pacientes outros métodos para a manutenção do equilíbrio e foco da atenção, melhor será para todos.

O desenvolvimento da capacidade de atenção.

A mente não treinada assemelha-se a uma garrafa cheia de água e lama em constante agitação. Nada podemos ver com clareza nestas condições, entretanto, se a agitação parar, a lama repousa no fundo e podemos então ver com clareza através da água límpida. Isto é o que a Meditação nos oferece, acalmar a mente e desenvolver nossa atenção para podermos ver com mais clareza.

A mente não apaziguada está sempre em busca de estímulos. Trabalha, estuda, acessa a Internet, fala ao celular e nas redes sociais, e ainda mantém ligada uma TV com 60 canais e vai passando um por um, tudo ao mesmo tempo. Enquanto faz tudo isto está pensando no programa do final de semana ou no treino que irá fazer na academia.

No Ocidente poucos sabem como treinar a mente, apaziguá-la, focar e manter a atenção.  Isto é possível através da prática da Meditação. Há tempos que a medicina chinesa é adotada no Ocidente pela constatação de seu valor terapêutico. Os ensinamentos da psicologia hindu e budista também vem sendo incorporados às sociedades ocidentais nas ultimas décadas. Apesar da prática da Meditação ter origem na Índia e no Budismo, elas são acessíveis a qualquer pessoa independente de sua orientação religiosa ou filosófica.

As práticas de Meditação desenvolvidas no Ocidente têm sido utilizadas como método de tratamento e prevenção de transtornos emocionais como depressão, ansiedade, impulsividade, e redução do estresse, assim como no controle da hipertensão arterial, e muitos outros problemas de saúde e aprendizado.  Seus benefícios têm estimulado os profissionais de saúde a adotar a meditação como um método complementar de tratamento e despertado o interesse da comunidade científica mundial no sentido de comprovar seus efeitos e explicar seus possíveis mecanismos de ação na manutenção e recuperação da saúde. Atualmente desenvolvemos um programa de atenção aos funcionários e pacientes do Centro de Saúde Geraldo de Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Nós podemos, sistematicamente, otimizar nossa capacidade de atenção, reforçando esta habilidade mental da mesma forma que trabalhamos os músculos de nosso corpo. A mente destreinada oscila entre a agitação e o tédio, a inquietação e o enfado. Este treinamento chamado de Shamata é o caminho do desenvolvimento da atenção que culmina em uma atenção que pode ser sustentada, sem esforço algum, durante muitas horas. O treino da atenção, por intermédio da Meditação, tem trazido uma quantidade enorme de benefícios para as pessoas que sofrem os efeitos doentios da vida moderna como  ansiedade, consumismo e ritmo acelerado.

Quando a atenção está comprometida, ela se distancia de tudo o que fazemos e, quando é bem focada, ela aperfeiçoa tudo o que fazemos. A prática do Shamata não requer nenhuma filiação ou concepção religiosa ou ideológica. Ela é a chave para o equilíbrio mental, cujos benefícios são acessíveis a qualquer pessoa que persevera em sua prática.

A faculdade da atenção nos afeta de várias maneiras. Nossa percepção da realidade está relacionada bem de perto com o foco de nossa atenção. Somente àquilo que prestamos atenção nos parece real, enquanto que o que ignoramos, não importa o quão importante possa ser, se transforma em algo insignificante. A realidade que se nos apresenta não é tanto aquilo que existe, mas sim aqueles aspectos do mundo nos quais centramos nossa atenção.

A atenção tem um profundo impacto no caráter e no comportamento ético. A capacidade de trazer de volta, constante e voluntariamente, uma atenção divagante é a principal raiz do julgamento, do caráter e da vontade.

Os grandes gênios das ciências, da musica, dos esportes primam por sua capacidade de sustentar voluntariamente a atenção. Para a realização de uma grande obra é imprescindível uma extraordinária capacidade de focar a atenção com um alto grau de clareza, por longos períodos de tempo.

Estudos científicos sobre a meditação.

A meditação tem sido amplamente estudada e aplicada no âmbito da saúde, da educação, dos esportes e até na criminologia.

A profusão de estudos sobre os benefícios da meditação realizados na América do Norte, Europa e Ásia, pode ser encontrada em um dos mais importantes sites de referências científicas sobre saúde denominado PubMed. No Brasil instituições de ensino e pesquisa com a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Hospital Albert Einstein, Universidade de Campinas (UNICAMP), Universidade de Brasília entre outras vem estudando os benefícios desta técnica.

No Brasil, o plano de política nacional de práticas integrativas e complementares do SUS, apoiado pela Organização Mundial da Saúde, oficializou a implantação da meditação como método complementar para a melhoria da qualidade de vida dos usuários do Sistema e, atualmente são oferecidas práticas de meditação em alguns hospitais e postos de saúde.


A prática da meditação tem efeito sobre o sistema endócrino reduzindo a produção do cortisol, hormônio diretamente associado ao estresse; sobre o sistema neurológico aumentando a produção de endorfinas e melhorando o funcionamento de regiões do cérebro responsáveis pelo sentimento de bem-estar, assim como mudar o padrão básico da frequência cerebral que passa atuar com frequência mais baixas o que proporciona maior capacidade cognitiva, criatividade e atenção; o sistema imunológico é beneficiado na medida em que com a redução do estresse ele passa a funcionar melhor.

A mente aquietada e focada diminui os pensamentos obsessivos e autorreferentes, tem ação direta sobre a impulsividade, aumenta o senso de responsabilidade pessoal, melhora a autoestima e as relações interpessoais e melhora o estado de humor. Pesquisas confirmam que meditadores que praticam a anos diminuem visitas ao médico e hospitalizações em até 70%, e que há mudanças estruturais positivas em algumas regiões do cérebro, principalmente àquelas relacionadas a atenção.

Meditação nas escolas.

A prática da meditação nas escolas é altamente recomendável. A técnica é bastante simples e pode ser administrada em grupos. Professores e facilitadores que adquiram o conhecimento e aprendam a prática podem administrá-la a seus alunos utilizando apenas 10 minutos por dia com excelentes resultados.

Os principais efeitos surgem logo nas primeiras sessões, e se pode esperar uma grande diminuição da agitação e ansiedade e um foco inicialmente voltado para as próprias emoções, desejos, expectativas e comportamento. Uma diminuição da impulsividade e do autocontrole também são encontrados em um breve espaço de tempo. A Atenção Focada e Sustentada é alcançada paulatinamente com a prática constante.OBS: grifos nossos.

* Rubens Maciel é psicanalista, Doutor pela Faculdade de Saúde Pública da USP, Pós-doutorando em Psicobiologia na UNIFESP, Instrutor de Técnicas Meditativas no Centro de Saúde  da Faculdade de Saúde Pública da USP, Member of the Shambhala International Meditation Center, Pesquisador peloConselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, Colaborador no Serviço de Promoção de Saúde do HCFMUSP e Professor universitário. Participou do Papo de Mãe sobre Déficit de Atenção e Hiperatividade como especialista convidado. Site: www.rubensmaciel.com.br. E-mail: rubensmaciel@rubensmaciel.com.brATENÇÃO!Clique aqui para acessar o vídeo em que o Dr. Rubens explica como meditar.


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