Papo de Mãe
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A história de *Joana, vítima de violência doméstica

De conto de fadas a relacionamento abusivo. “Achava que os excessos eram paixão”, diz *Joana.

Mariana Kotscho Publicado em 05/02/2021, às 00h00 - Atualizado às 09h40

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5 de fevereiro de 2021


*Joana é nome fictício da vítima de violência doméstica que estava na audiência da Vara de Família quando o juiz Rodrigo de Azevedo Costa disse não estar “nem aí para a Lei Maria da Penha”. Conheça aqui a história dela.

Por Roberta Manreza*

De conto de fadas a relacionamento abusivo. “Achava que os excessos eram paixão”, diz *Joana

*Joana conheceu o ex-marido em julho de 2015 em uma rede social. Estava há dois anos divorciada, com uma filha pequena, e não pensava em um relacionamento sério tão cedo. Ele, persistente, começou a persegui-la, se dizia extremamente apaixonado, e ela acreditou, achou que estava diante de um príncipe encantado, tamanho o empenho em conquistá-la. O controle excessivo, para ela, no início, não parecia um problema. Os sinais, para quem vive a relação abusiva, não parecem tão claros no começo, esclarece *Joana. Mas, hoje, ela já consegue identificar o relacionamento abusivo desde o começo. Se ela saia com as amigas para se divertir, ele descobria o lugar e chegava de surpresa. Se não podia estar lá, o namorado, na época, telefonava e ficava no celular o tempo que fosse necessário para não deixa-la sozinha com as amigas. Situação que se repetia no trabalho. *Joana era funcionária de uma agência de viagens há dez anos. Tinha vários clientes e ganhava bem. O ex-marido, tinha um ciúmes excessivo, e conseguiu convencê-la a sair do emprego e abrir um negócio próprio. Mas com acesso livre ao novo escritório, ele a fez perder várias vendas. O ex-companheiro foi isolando *Joana no escritório, no círculo de amizades e inclusive na família.

As agressões física, psicológica e sexual

“Ele bateu repetitivamente com o tablete no meu rosto até quebrar meu nariz. Pensei que fosse morrer, pedi socorro aos vizinhos e recebi uma reclamação do condomínio por “briga de casal”, lamenta *Joana

Na comemoração do primeiro aniversário de namoro de *Joana e o ex-marido começaram as agressões. Tudo parecia perfeito naquela noite. Jantar e festa para celebrar a data. Quando voltaram para o apartamento de *Joana, o casal ainda se beijou e o ex-companheiro fez declarações apaixonadas. Na casa, ele surpreendentemente trancou todas as portas e colocou as chaves dos carros (dele e dela) no bolso da calça. E sem mais nem menos deu um soco na cara de *Joana, assim, sem explicação. Com o muro ela caiu no chão. Ele a puxou pelos cabelos e a arrastou até o quarto. Pegou um tablete e começou a fazer acusações de troca de mensagens dela com um outro homem. Disse que ela o estava traindo. Quando *Joana perguntava transtornada: “O que está acontecendo, não sei o que está acontecendo?” Ele respondia: Quer ver o que está acontecendo?”. Segundo ela, ele pegou o tablete e bateu várias vezes no nariz dela até quebrá-lo. Voou sangue em todo o cômodo. *Joana pediu socorro aos vizinhos, achou que fosse morrer. Ninguém chamou a polícia. Teve sorte de não ter morrido. No dia seguinte, ainda recebeu um e-mail do condomínio com reclamações por causa da “briga de casal”.

Na época, *Joana não teve coragem de denunciá-lo por causa das ameaças. Ele dizia que ninguém iria acreditar nela e o pior, disse que *Joana poderia perder a guarda da filha do primeiro casamento com boletins de ocorrência e brigas na justiça por agressão. Com medo, ela se calou. Era só o começo da violência física, psicológica e sexual que enfrentaria em três anos de convivência.

“Não tinha ideia do perigo e temia pelas minhas filhas”, relata *Joana

*Flores, bilhetes e encontros depois, Joana dava novas chances para o ex-marido. Joana acredita que tenha sido dopada para ter relações sexuais sem o consentimento dela. Acordava com dores no corpo. Com duas filhas pequenas, ele ameaçava *Joana dizendo que se ela se separasse dele, ele poderia fazer algo de ruim com as meninas. Ameaçava me matar e matá-las.

Só na terapia descobriu o relacionamento abusivo e o grave risco que corria

Joana criou coragem e contou ao pai. Eles procuraram uma advogada que indicou, primeiramente, ajuda psicológica para ela. Foi só neste momento que Joana* descobriu o perigo da situação e resolveu procurar a polícia para denunciar o ex-marido e entrar justiça contra ele, mesmo achando que ninguém iria acreditar nela.

Sofreu com muita falta de informação e passou por muita humilhação em delegacias. A Casa da Mulher Brasileira, para ela, foi o primeiro lugar que teve um atendimento digno. Que realmente foi ouvida, toda a sua história e viu o risco gravíssimo que corria de feminicídio.

Vítima de violência doméstica, ouviu da advogada do ex-companheiro insinuações do tipo: “Que mulher que apanha e deita no outro dia com o cara? Que mulher que tem dois filhos com um cara que bate nela? *Joana desabafa que todos esses processos judiam muito do psicológico. Provas, testemunhas, para comprovar a violência doméstica. *O ex-marido apagou muitas mensagens e fotos do celular dela.

Sem medida protetiva e maior risco de feminicídio

“Se continuar nesse contexto o que será de nos mulheres? Não teremos mais Lei Maria da Penha para nos proteger?”, questiona *Joana

*Joana fala que com medida protetiva ela tem a guarda municipal que pode acionar e que fica mais fácil um policial acreditar nela com o documento em mãos.

Para *Joana, medida protetiva é uma carta de liberdade para ir fazer uma compra no mercado, para ir na padaria comprar um pão”. Ela pensava: “Qualquer viatura, eu vou mostrar a medida protetiva eu vou estar segura”. E vai além: É isso que os juízes e as juízas precisam entender, que a medida protetiva nos devolve a vida. E nos salva, sim.”

E Joana implora: “Se continuar nesse contexto o que será de nos mulheres? Não teremos mais Lei Maria da Penha para nos proteger? Medida protetiva é o nosso suspiro de alívio”, finaliza *Joana (voz embragada).

“Eu só estou viva por causa da Lei Maria da Penha e por ter recebido medidas protetivas contra o meu ex-marido que já não existem mais. Ninguém me ouve e ele vai fazer. Só vão me ouvir quando ele vir aqui e matar a gente. Quando virarmos notícia”, esse é o desabafo angustiado de *Joana (nome fictício).

Cansada, exausta, ela conta que já são quase cinco anos de sofrimento e luta na justiça para ter paz. Paz para ela e para as filhas pequenas, uma de três anos e a outra de um ano e oito meses de idade. Desespero, segundo *Joana, que só piora com tantos processos e audiências. Ela confessa que o seu estado psicológico está extremamente abalado e que não consegue dormir. O temor dela: “Não sei se no dia seguinte um juiz vai chegar para mim e tirar a guarda das minhas filhas e dar para o pai alegando que estou praticando alienação parental”.

Ela revela que na audiência da Vara de Família, escutou do juiz que ele nem leu o processo de violência doméstica, que queria terminar o negócio e que se não tivesse solução, tiraria a guarda dela.

“É muito fácil acusar a mulher de louca, de ressentida pelo fim do casamento”, desabafa *Joana.

*Joana diz que conseguiu medidas protetivas para ela, mas que o ex-marido tinha o direito de visitar as filhas. A caçula foi diagnosticada com uma epilepsia grave, refratária, de difícil controle. Apesar dos exames comprovando a epilepsia, o ex-companheiro entrou com uma ação alegando alienação parental e afirmou que a doença era mentirosa, que era tudo invenção para ele não ver a filha.

Para *Joana, palavra de mulher vale menos. “Tenho provas concretas de violência doméstica e nada adianta diante de uma acusação de alienação parental”, afirma. “Tenho medo de perder a guarda das minhas filhas nas mãos de um juiz por causa de alienação parental. Enquanto eu respirar eu vou proteger a vida delas. A justiça não protege. A justiça nem olha. Os homens alegam que mulher não deixa ver os filhos por ciúmes, conta *Joana. “É muito fácil acusar a mulher de louca, de ressentida pelo fim do casamento”, desabafa ela.

Leia aqui a reportagem especial “Embate nos tribunais: Lei Maria da Penha X Lei da Alienação Parental”. 

Leia aqui a história completa de Roberto, vítima de alienação parental

*Roberta Manreza é jornalista e apresentadora do Papo de Mãe

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