Papo de Mãe
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A birra e a cisma

Uma crônica do psicanalista Paulo Bueno, um papo de pai sobre a birra

Paulo Bueno* Publicado em 11/04/2022, às 06h00

Ataques de birra costumam desestabilizar os pais
Ataques de birra costumam desestabilizar os pais

Pior que birra de criança é cisma. A birra, ainda que pareça eternizar-se, é passageira. Uma boa conversa, uma bronca mais enérgica ou até mesmo um chocolatinho chantagista são capazes de desfazer uma pirraça. Em nosso tempo de criança, inclusive, o que vigorava em matéria de birra era a lei da chinela. Não tenho saudades, tampouco transmito esse legado, mas verdade seja dita: a birra encontra o seu limite na ameaça ou na recompensa.

A inquietação de uma criança cismada não tem demarcação definida. Você pode adiar, dar uma desculpa, se esquivar, entretanto nunca saberá se, de fato, desapareceu a ideia fixa. Há histórias de adultos que adiaram a resposta a perguntas infantis embaraçosas, comprometendo-se a explicar em outro momento (pensando que iriam se safar), e foram cobrados muitos anos depois. Minha esperança era a de que Pedro fosse uma dessas crianças que esquecem. Quando ele pediu para que eu ajudasse a escrever “quero viajar”, eu posterguei. Mas no dia seguinte o pedido se repetiu, e no outro também. Nesse momento aprendi que diante de uma cisma só resta ceder.

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“Escreve aí, a primeira é a letra Q” eu disse. “Mas papai, ‘que’ já é uma palavla”. Preocupado com a possiblidade dessa observação transformar-se em uma cisma, tratei de desfazer o mal-entendido da língua : “É verdade, ‘que’ é uma palavra, mas também é uma letra”. Ao que parece, essa revelação, a de que o “Q” possuía uma dupla identidade, não o convenceu. E, logo, Pedro tratou de reunir “Q” e “que” em um único conceito. “Então ‘que’ é uma palavla que só tem uma letla”. Antes que a sua observação se transformasse em objeção, busquei explicar “Não, Pedro. Só ‘A’, ‘E’, e ‘O’ são palavras com uma letra só. Todas as letras precisam de outras letras para fazer palavras”. “Uau!!!”, exclamou, interrompendo-me. Após essa manifestação de surpresa, encorajei-me e falei em tom professoral: “A letra ‘Q’ precisa de outras duas para virar a palavra ‘que’ filho”. Ele acatou.

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Paulo Bueno

Prosseguimos letra por letra até finalizar a palavra “quero”, sem questionamentos. Em seguida, comecei a soletrar o próximo termo da oração: “viajar”. “Agora escreve aí, ‘V’ é a primeira letra de viajar”. Ao escutar, Pedro arregalou os olhos que nem o garimpeiro quando enxerga no meio das pedras ordinárias o brilhinho de um diamante: “ Papai, ‘vê’ é uma palavla! ‘Vê’ é sim uma palavla!” e vitorioso completou: “Viu, tem sim palavlas de uma letla só papai. Você não sabe de nada”.

O ‘Q’ o olho não ‘V’ o coração não sente.

*Paulo Bueno: Pai do Pedro, de 5 anos. Psicanalista, mestre e doutor em Psicologia Social pela PUC-SP e docente do Instituto Gerar Psicanálise, Perinatalidade & Parentalidade.

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