Papo de Mãe
Papo de Mãe

2020: O ano da exaustão materna

Mariana Kotscho Publicado em 18/12/2020, às 00h00

None
18 de dezembro de 2020


Se você é mãe ou a principal cuidadora de crianças pequenas eu posso dizer com certeza que você está exausta. Talvez nem exista mais palavras para definir o nível de cansaço, de stress emocional, de insegurança financeira, de medo que as mães/cuidadoras estão vivendo em 2020.Os números e dados são claros: fomos nós o grupo mais impactado pelas consequências da pandemia. O impacto é mais cruel quando fazemos o recorte de classe e raça. As mulheres mães negras e periféricas são as que mais sofrem.

Mais mulheres deixaram seus empregos, cerca de 7 milhões, desde março. Apenas metade das mulheres com filhos até dez anos segue empregada. As mulheres negras foram as mais afetadas, elas representam 58% entre as desempregadas. Segundo a pesquisa “Sem parar: O trabalho e a vida das mulheres na pandemia“, feito pelo Gênero e Número e SOF Sempreviva Organização Feminista, 41% das mulheres que seguiram trabalhando durante a pandemia com manutenção de salários afirmaram trabalhar mais na quarentena, relatando uma sobrecarga. 

As mães estão exaustas

As mulheres que puderam trabalhar de casa, com a manutenção do salário, afirmaram que as tarefas domésticas aumentaram muito, 65,4% disseram que a responsabilidade com o trabalho doméstico e de cuidado dificultam a realização do trabalho remunerado. Houve também o aumento da violência doméstica. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública constatou um aumento de 22% de casos de feminicídio no Brasil, entre os meses de março e abril, os primeiros do isolamento social.

O que os dados revelam é algo que sabemos há tempos: as mulheres estão sobrecarregadas e vulneráveis. As mulheres que são mães ou as principais cuidadoras estão ainda mais. A pandemia colocou uma lente de aumento e acrescentou outras barreiras aos problemas que tínhamos antes do COVID-19. A grande questão é que é impossível dar conta de tudo sozinha. O trabalho doméstico, o trabalho físico e emocional de criar seres humanos, a responsabilidade pela manutenção da vida de crianças e velhos, a responsabilidade financeira para o sustento da casa, o compromisso com a educação, com o cuidado e o trabalho formal: essa conta nunca vai fechar. 

A grande questão é: como vamos sair desta sinuca de bico em que nos encontramos? Onde iremos encontrar forças e energia para mudar a situação, já que estamos exaustas? 

Não existe uma resposta única, nem fácil. Mas, ao mesmo tempo em que denunciamos as mazelas que estamos sofrendo, precisamos anunciar alguns caminhos possíveis e terminar este ano com alguns lampejos de esperança. 

Uma aldeia inteira

Há um ditado africano que diz que é preciso “uma aldeia para criar uma criança”. Da forma como nos organizamos como sociedade ocidental, estamos cada vez mais isoladas. Antes mesmo da quarentena, nós mães estávamos tão submersas nos afazeres domésticos e de cuidado, que não sobrava nenhum tempo para construir uma “aldeia”. Muitas de nós moramos longe de nossas famílias de origem ou sem nenhuma conexão real com elas; não conhecemos nossas vizinhas, com poucas possibilidades de alimentar relações de amizades verdadeiras. Cada mãe e cada cuidadora está travando uma luta solitária e pesada. 

Precisamos retomar esta construção de pequenas aldeias. Com outras mulheres, com mulheres mais velhas, avós, tias, amigas. Pequenos laços que irão nos conectar com a sensação de comunidade e de que não estamos sozinhas nesta jornada. Não é vergonha nenhuma dizer que não damos conta de criar nossos filhos e filhas sozinhas. Enquanto a gente alimentar o mito de que estamos dando conta ninguém virá compartilhar a tarefa. Precisamos trazer para o debate público a sobrecarga da responsabilidade pela produção e manutenção da vida humana. 

A aldeia vai mudar conforme seu contexto social, financeiro, emocional. Pode ser alguém do seu lado, alguém que você conhece apenas virtualmente, sua mãe, uma mulher mais velha que você adotou como ancestral, mãe de um amigo do seu filho. Não importa como. O fundamental é que precisamos nos juntar. Sozinhas estamos mais vulneráveis, cansadas e sem forças. Juntas podemos mais.

Cobrar o Estado

Mas de nada adianta estarmos juntas, criarmos uma aldeia, se o Estado continuar colocando na conta das mães a responsabilidade que também é dele

A constituição afirma que a sociedade, o Estado e a família são os responsáveis pelo cuidado e garantia de direitos da criança e do adolescente, como Prioridade Absoluta. 

Para que as mães e as crianças e adolescentes possam ter seus direitos assegurados, é preciso uma cobrança constante e uma vigilância permanente sobre as ações do Estado. 

O Estado deve garantir acesso universal, público e de qualidade a creches, escolas de educação infantil e de ensino fundamental. O Estado deve garantir proteção trabalhista e legal para mulheres mães e gestantes. O Estado deve fornecer informações baseadas em evidências científicas sobre gestação, parto e cuidados no puerpério. O Estado deve garantir acesso ao SUS e acompanhamento da mãe e da criança: saúde física, emocional e psicológica. O Estado tem que garantir transporte de qualidade e seguro para mães e crianças. O Estado deve assegurar renda básica mínima para todas as famílias. 

Para exercermos a maternidade de forma saudável, plena e responsável é preciso compreender que o trabalho de cuidado é um trabalho político e não pode ser exercido apenas por uma pessoa. Entender que o preço do pão e do leite que nossos filhos comem dependem de decisões políticas. Que a alta do desemprego entre mulheres com filhos pequenos é política. Que a divisão injusta do trabalho doméstico é política. Que a falta de rede de apoio é política. Que a baixa qualidade da educação pública é política.

Se permanecermos sozinhas, isoladas e despolitizadas teremos poucas esperanças de um futuro mais gentil, leve e justo. Para nós e para nossas filhas e nossos filhos. Imagina a força que teríamos se todas as mães e cuidadoras do mundo se unissem para dizer: criar um ser humano é o principal trabalho que existe e isso não pode ser feito por apenas uma pessoa. E, enquanto esta responsabilidade não for compartilhada, nós iremos lutar. 

*Por Política é a Mãe  @politicaeamae




ColunistasDestaquesBebêFamíliaMãe / PaiHomePolítica é a MãeCriança