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11/04/2021

Pedro e o doutorado. Uma crônica de Paulo Bueno

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Paulo Bueno é psicanalista, pai do Pedro, e publica suas crônicas mensalmente no Papo de Mãe. Um Papo de Pai.

Por Paulo Bueno*

A TESE

– Eu tenho uma hipótese! Bradou a criança no auge dos seus quatro anos.

– E o que é uma hipótese filho?

– Hipótese é quando a gente testa uma palavla[1].

– E qual é sua hipótese?

– Eu não lemblo mais.

Eu, que também elaboro minhas conjecturas, cometi o deslize de transformar uma de minhas hipóteses em tese. Com Pedro recém-nascido, era pegar ou largar. Na dúvida, acabei me embrenhando no terreno árido do doutorado ao mesmo tempo que experimentava a paternidade. Lá se vão quatro anos (da criança e da pesquisa).

Primeiros dentes, introdução alimentar, primeiros passos, primeiros tombos, introdução da tese, Palavra Cantada, praça, choro, vai até o berço, nina até dormir, troca o dia pela noite, broncopneumonia, preocupação, desmame, primeiras palavras, frases, hipóteses, exame de qualificação, escolinha, desfralde, pandemia.

Ops! Sempre há algo que foge ao calculável

Daí em diante, na reta final da escrita da tese, tudo ficou mais difícil. Tive que recorrer a um método de concentração, desses que se vê na internet. O método é simples: 35 minutos focados exclusivamente na escrita e 5 minutos de dispersão. Funcionou bem no início, super indico. Depois, fui percebendo que houve modificações no ciclo, que passou a ter: 10 minutos de estudo; 5 minutos escutando o garoto insistir em uma brincadeira que colocava em risco sua integridade física; 5 minutos escutando o choro; 5 minutos consolando a criança; e nos últimos 15 minutos fazíamos aquela brincadeira que colocava em risco sua integridade física e minha integridade moral.

No penúltimo dia antes do prazo final, Pedro me chamou para brincar e tive que explicar-lhe:

  • Não posso, filho. Faltam apenas duas páginas para eu terminar a tese.
  • E isso é muito?
  • Não. O problema é que uma é em português [resumo] e a outra é em inglês [abstract]. Por isso fica mais difícil.
  • Eu te azudo a esclever papai.

Quando vi, ele já estava no meu colo e eu soletrando aquilo que tinha que escrever. No dia seguinte, quando fui colocá-lo pra dormir, Pedro me perguntou sobre a tese.

  • Já acabou de esclever seu doutolado papai?
  • Sim filho, acabei hoje.
  • Até aquela páite [parte] que ela [era] em inglês?
  • Sim
  • Ual!!! E sem a azuda de ninguém?

Fui auxiliado, naturalmente, mas nenhuma azuda se compara à que tive do Pedro durante esse processo.

[1] Conferir Bruno (personagem de desenho animado). In: Dinotrem. São Paulo: Netflix, 2020.

*Paulo Bueno: Pai do Pedro, de quase 5 anos. Psicanalista, mestre e doutorando em Psicologia Social pela PUC-SP e docente do Instituto Gerar Psicanálise, Perinatalidade & Parentalidade.

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Assista ao Papo de Mãe “Meu filho de 5 anos”




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