O Portal
da Vida em Família
25/11/2020

Criar filhos não é instintivo: é preciso educar-se para educar

 

Por Ivana Moreira.

Educação parental: A preparação de pais e mães para lidar com as diferentes etapas de desenvolvimento dos filhos

Quem nasceu nos anos 1970, como eu, certamente ficou de castigo, apanhou e foi impelido a ter uma obediência quase cega aos pais. Tudo isso era rotina para a maior parte das crianças num passado bem recente. Mas por que os pais de antigamente educavam as crianças assim? Será que eles não amavam seus filhos? Será que eles eram más pessoas? Claro que não. Eles só não tinham conhecimento sobre como (e por que) fazer de outro modo. Principalmente: eles não sabiam nada sobre as consequências de suas atitudes.

Educar filhos não é um ato instintivo como muitos podem pensar. É preciso educar-se para educar. É preciso entender como o que acontece durante a infância dos filhos influencia na construção da personalidade de cada criança. Hoje, não faltam estudos da neurociência para comprovar o impacto das vivências dessa fase para a vida adulta de cada indivíduo. São nos primeiros seis anos de vida que 90% das conexões cerebrais são formadas. O ritmo é frenético, de 1 milhão de conexões por segundo: é um momento único.

Não foi por acaso a chamada educação parental – a preparação de pais e mães para lidar com as diferentes etapas de desenvolvimento dos filhos – ganhou tanta relevância nas últimas décadas. Os estudos pioneiros sobre parentalidade começaram há quase um século, com os austríacos Alfred Adler (psicólogo) e Rudolf Dreikurs (psiquiatra), e ganharam repercussão nos Estados Unidos a partir dos anos 1930. No Brasil, porém, essa discussão só ganhou força bem recentemente, na última década.

Foi por volta de 2010 que começamos a encontrar a figura do “educador parental” por aqui. E o que faz um educador parental? Ele é o profissional especializado em preparar pais e mães para o exercício da denominada parentalidade positiva, que é esse novo olhar para a infância, pararelação entre pais e filhos na infância.

O ofício surgiu espontaneamente, a partir do momento que profissionais brasileiros – a maior parte com formação nas áreas da saúde e da educação, como psicólogos, médicos e professores – foram descobrindo os estudos já tão difundidos nos Estados Unidos e na Europa.  A primeira referência para os profissionais brasileiros talvez tenha sido a terapeuta americana Jane Nelsen, idealizadora da metodologia “disciplina positiva” e autora de uma série de livros que se tornaram bestsellers mundiais.

Não existe ainda no Brasil uma associação formal de educadores parentais, mas tornou-se evidente a grande mobilização de profissionais se especializando neste ofício. Fundada em 2018, a Associação Brasileira de Disciplina Positiva, ligada a associação norte-americana criada por Jane Nelsen, já formou mais de 2.000 educadores parentais. E a Parent Coach Brasil, escola pioneira no país na formação de coaches parentais, já certificou outros 5.000 alunos.

Em comum, todos esses educadores parentais têm a crença de que, para fortalecer os filhos, é preciso, antes de qualquer coisa, desenvolver os pais. Para formar adultos bem resolvidos emocionalmente, capazes de contribuir para o bem coletivo, é preciso voltar o olhar para as relações familiares na infância.

Se mudarmos o início da história, mudamos a história toda. É fato. E é emocionante ver esse movimento pela educação parental ganhando fôlego no Brasil. Estamos prestes a testemunhar um momento histórico: o 1º Congresso Internacional de Educação Parental. O evento – que acontecerá em São Paulo, entre os dias 19 e 21 deste mês, com transmissão ao vivo pela internet – terá 13 dos principais especialistas em parentalidade positiva como palestrantes e quase 300 participantes. Será a primeira vez que esse grupo se reunirá para debater os desafios dessa nova profissão no Brasil (veja a programação em www.parentingbrasil.com.br).

Não é mera casualidade que este primeiro congresso aconteça justamente agora, no meio de uma pandemia. Mais do que nunca, a discussão sobre a qualidade das relações entre pais e filhos se faz necessária. Isolados em casa com suas crianças, por causa das medidas de combate à covid-19, muitos pais foram obrigados a enxergar que as coisas não iam nada bem. E a perceber a necessidade de educar-se para educar.  Há males que vêm para o bem, já dizia o ditado.

Não foi por acaso também que o livro “Pais que Evoluem”, da brasileira Telma Abrahão, lançado em plena pandemia, entrou para o ranking dos dez livros mais vendidos no país na categoria não-ficção. Uma das palestrantes do congresso, a biomédica e educadora parental costuma dizer que educar filhos é exercício de dedicação diária, como o de trabalhar os músculos numa academia. Mas é mais fácil se esforçar para educar crianças fortes e felizes do que consertar adultos devastados pelas experiências da infância.

Ivana Moreira é jornalista, fundadora da www.cangurunews.com.br (plataforma de conteúdo sobre infância para pais, educadores e cuidadores), colunista de educação do jornal Metro. É coordenadora editorial da coleção Primeira Infância, da Literare Books, e mãe de dois meninos: Pedro, de 16 anos, e Gabriel, de 12.


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