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da Vida em Família
03/12/2020

Semana “Lixo Zero”: A brincadeira e o brinquedo precisam de plástico?

A brincadeira e o brinquedo precisam de plástico?

 

(*) Por JP Amaral

 

A Semana Lixo Zero se iniciou no último dia 24 com o seguinte chamado: logística reversa já! O conceito parece pouco popular ainda, mas já existe desde 2010, quando foi promulgada a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Logística reversa é um sistema que visa coletar e restituir ao setor empresarial um dado produto ou embalagem de sua responsabilidade para que o recomponha no ciclo produtivo ou para que se dê uma destinação ambientalmente adequada. O conceito já é praticado em seis setores previstos na lei, mas para a grande parte do que vai para o lixo, em especial o que é feito de plástico, não há obrigatoriedade desta logística reversa. O resultado é que o Brasil recicla apenas 1,28% de todo o lixo plástico produzido e é o 4º maior produtor deste resíduo.

 

O brinquedo é um bom exemplo desta cadeia. Estudo feito pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Química Verde, Sustentabilidade e Educação (GPQV), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apontou que 90% de todos os brinquedos no mundo tem em sua composição materiais plásticos e estima, ainda, que devem ser produzidos entre 2018 e 2030 no Brasil o equivalente a quase 200 mil caminhões de lixo de brinquedos de plástico. Considerando que o plástico pode durar mais de 400 anos, muito provavelmente os primeiros brinquedos de plástico produzidos no mundo, por volta da década de 50, ainda estão no meio ambiente. A situação se agrava quando o mesmo estudo da UFSCar traz que brinquedos de plástico têm baixa probabilidade de serem reciclados e podem conter substâncias potencialmente tóxicas e cancerígenas para as crianças.

Mas o brinquedo e o brincar são essenciais para a infância. Com eles a criança aprende e desenvolve uma série de habilidades motoras, de criação, de socialização e de relação com o mundo. E será que para isso precisa de plástico? A verdade é que há uma fábrica gigantesca de brinquedos que não tem sequer um brinquedo de plástico e é de graça. Essa fábrica se chama natureza. Nela encontram-se elementos e recursos em abundância, com diferentes texturas, cheiros, formas e memórias, que amplificam essas habilidades fundamentais para o desenvolvimento infantil. E, o melhor de tudo, que se decompõem facilmente em uma verdadeira logística reversa dos ciclos naturais.

 

Não apenas na natureza é possível encontrar brinquedos acessíveis. Ainda mais porque lidamos com uma grande parcela da população vivendo em cidades, com pouco contato com áreas naturais e, dada a crise pandêmica, que está prioritariamente em casa. Desta forma, existem outros materiais também disponíveis para a brincadeira: utensílios de cozinha de louça, materiais não estruturados como tecidos e cordas, e ferramentas que, sob supervisão dos adultos, passam maior confiança e responsabilidade às crianças. Tudo isso disponível dentro de casa e sem ter que ceder aos diversos estímulos de consumo.

 

Aliás, falando em estímulos ao consumo, uma empresa de brinquedos que busca persuadir as crianças a comprarem seus produtos por meio da publicidade, convenhamos, não está muito preocupada com a proteção e educação infantil, muito menos com o meio ambiente, mas sim com o aumento exponencial da venda de seus produtos. Se queremos uma sociedade lixo zero, que preza pela sustentabilidade, devemos considerar também como um produto é comercializado e publicizado, com ética e respeito à infância, não direcionando a ela qualquer comunicação mercadológica, e contribuindo, assim, para uma sociedade mais justa, saudável e menos consumista.

 

Este artigo é baseado na publicação “A brincadeira e o brinquedo precisam de plástico?“, uma realização dos programas Criança e Consumo, Criança e Natureza e Território do Brincar, iniciativas do Instituto Alana.

(*) JP Amaral é gestor ambiental e mobilizador do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana.

 

 


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