Mais bonecas, menos machos

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Por Vinicius Campos*, ator, escritor, está casado com o Eduardo e são pais de três adolescentes

Dia das crianças. Muitas de nossas meninas vão ganhar bonecas de presente e os meninos carrinhos, arminhas, bombas nucleares.

Os mais progressistas apontam: precisamos de igualdade. Meninas também têm direito de ganhar carrinhos e arminhas.

Será? Será que não deveríamos lutar por uma igualdade onde o modelo copiado seja o femenino e nossos garotos conquistem o direito de brincar de boneca?

É incrível como nos assustamos quando imaginamos um mundo onde os homens seguem os modelos que são considerados femininos.

Somos tão machistas que vemos como um salto de qualidade que uma mulher ocupe um cargo importante numa empresa, porém enxergamos com desprezo o homem que fica em casa cuidando dos filhos.

Por outro lado, cada vez mais se fala da falta que fazem os pais ausentes. No Brasil há mais de cinco milhões de crianças sem o nome do progenitor no documento. Outras milhões possuem o registro, mas carecem da presença. E eu pergunto: como ser um bom pai se nós homens nunca brincamos de boneca? Se nunca nos ensinaram a exercer o amor e expressar nossos sentimentos?

Eu estou casado com o Eduardo e somos pais de três adolescentes. Eles chegaram depois de um longo processo de adoção, e no começo a convivência foi difícil. Muita discussão, mal humor. Não sabíamos onde estávamos errando.

Levou tempo pra gente perceber que nossos filhos estavam pedindo amor. Não amor de pai. Amor de mãe. Incondicional. Foi tão duro que comecei a pensar que quem estava contra a adoção por parte de dois homens talvez tivesse razão.

Talvez os conservadores estivessem certos e não fosse da natureza do homem cuidar, amar, proteger. Mas não tínhamos tempo de procurar um culpado. Nossa família corria perigo.

Numa noite, sem poder dormir, depois de escutar a música de Zeca Veloso dizendo que “todo homem precisa de uma mãe” me perguntei se meus filhos conheciam o amor incondicional de uma mãe. Me perguntei se era justo eles passarem pela vida sem essa experiência tão profunda. E então decidi que me transformaria numa mãe para eles. Que deixaria de lado o orgulho que nós meninos aprendemos a ter tão cedo, que aposentaria meus gritos, e me entregaria de corpo e alma, como minha mãe fez comigo e meus irmãos. Uma educação baseada no carinho e no diálogo, e não nos castigos nem no velho “aqui mando eu” tão repetido pelos homens.

Nós, homens, fomos educados para ser fortes, pra esconder o choro, para usar a força física. Nunca nos deixaram brincar com bonecas. O cuidado e o amor foram e são considerados coisa de menina, coisa menor. Não é por acaso que toda profissão que esteja relacionada ao cuidado está mais ocupada por mulheres: professoras, enfermeiras, secretárias…

Nós, homens, somos privados de experimentar nossos sentimentos e somos incentivados a brigar, a usar armas, a mostrar que somos fortes. E apesar de toda a evolução humana, os machos continuam gerando noventa e cinco por cento dos homicídios no mundo**!!!

Fica a dica então:

Neste dia das crianças dê bonecas, dê livros, dê abraços. Permita que os nossos meninos exercitem a sensibilidade e mostre que nossas meninas são um exemplo a ser seguido. Num mundo carente de amor é fundamental que as mulheres tenham cada vez mais espaço para expressá-lo e ensiná-lo.

Ah, e nada contra que as meninas sejam astronautas, chefes de empresa, presidentas, e tudo aquilo que elas desejarem! Porque tenho certeza que o amor que elas aprendem cuidando de uma boneca faz e sempre fará toda a diferença, independente de qual profissão escolham.

Fonte**: Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) 2014

*Vinicius Campos é ator, escritor, está casado com o Eduardo e são pais de três adolescentes. Recentemente lançou seu nono livro: Rita e o Manual para ser Astronauta (Ed. Melhoramentos).

@viniciuscamposoficial