O Portal
da Vida em Família
29/11/2020

Diário de uma quarentena – Parte 1

Por Marília Mendes, Editora de literatura infantojuvenil

25 de abril de 2020, sábado, foi o dia que completei minha quarentena oficial. 40 dias em casa. Por isso resolvi escrever este texto. Mesmo sabendo que isso ainda vai continuar por mais alguns dias (ou meses) e muita coisa ainda pode mudar. Este então é meu relato/desabafo dos primeiros 40 dias de quarentena!

Minha vida sempre foi dividida em antes e depois.

Sou conhecida na família por ter uma boa memória, lembrar a data exata de vários acontecimentos, não só do que se passou comigo, mas com os outros também. Então, sempre que quero lembrar quando alguma coisa, me faço algumas perguntas para lembrar mais ou menos em que época se passou. O principal divisor dos meus “antes e depois” é se meus pais eram casados e seu já era casa. Mas outros momentos também ajudam nas minhas lembranças: eu já morava no PF? Já estudava no Beá? Foi depois que entrei na faculdade? Eu já tinha filha?

Agora certamente terei um novo divisor de águas: antes e depois da quarentena.

O valor que dou para diversos acontecimentos da vida obviamente será diferente.

Por exemplo, as atividades de casa: essa rotina me mata! Comecei a trabalhar com 16 anos, no shopping, meio período. Com 20, tive meu primeiro emprego de tempo integral. Hoje, 15 anos depois, não sabia o que era essa rotina doméstica: no meio da manhã, tenho que escolher o que vamos almoçar; aí começa: faz almoço, põe a mesa, come, tira a mesa, lava a louça, varre embaixo da mesa (nunca entendi por
que faziam isso na casa da minha vó, mas, hoje, comendo aqui toda refeição, ainda mais com criança, vejo a sujeira que fica), descansa um pouco… Daqui a pouco já tem que pensar no lanchinho da tarde, depois no jantar, faz comida, põe a mesa, come, tira a mesa, lava a louça, varre a sala de jantar… Quando vejo, já estou acabada. E de pensar que isso vai se repetir amanhã, depois de amanhã e por mais não sei quantos dias, sem eu saber cozinhar e sem ter ideia do que fazer de diferente para as próximas refeições, dá um certo – pra não dizer grande – desespero…

Além disso, que é só uma parte do dia, tem o trabalho, que exige muito; filha, que exige mais ainda; e marido, que graças a Deus está exigindo pouco. (Ouvimos alguns relatos de casais que não conseguem mais se olhar, que o número de divórcios vai aumentar significativamente… Aqui temos praticado o distanciamento sempre que possível. Depois que a filha dorme, cada um vai fazer o que gosta, pra ficar um pouco sozinho. Um dia ou outro, juntos, assistimos a um filme, conversamos sobre a vida, fazemos planos para quando tudo acabar… Mas nada que desgaste a relação, neste momento já tão conturbado das vidas.) Ah, e a gravidez, de 7 meses, que de alguma forma exige também: tem que comer direito, na hora certa, tem que fazer exercício, tem que fazer exame e controlar a glicose, tem que beber muita água, tem que comer fruta no meio da tarde, esquece as bolachas… tem que pensar em como vai ser quando ela nascer, como vamos fazer sem visitas, sem ajuda, será que o mundo já vai ter voltado ao normal? O que fazer com as lembrancinhas, se não teremos visitas? As roupas já estão lavadas e passadas? Precisamos comprar o que falta, pela internet mesmo, sem o prazer de passear pelos corredores da loja e ir pegando tudo que achamos legal… Logo logo tem que deixar a mala pronta. Quem vai cuidar da filha mais velha nesses dias? O que vamos fazer pra ajudar quem se disponibilizar? Aaaaahhh!

E no fim de semana? Tempo pra descansar? Que nada! Muito pior. É o dia inteiro de atenção e brincadeiras com a filha. E dia de faxina. Porque no meio da semana foi só dar um “tapa”, pra não viver no meio do lixão… Fim de semana tem que lavar banheiro, limpar cozinha, passar pano na sala e nos quartos, limpar vidros, tirar lixos, passar roupa… O serviço de casa não acaba nunca e ainda assim parece que ela está sempre bagunçada. Como pode?

Confesso que estou aproveitando esse momento reclusa para abrir mão de algumas vaidades diárias. Em momentos normais da vida, lavo o cabelo dia sim, dia não. Seco a franja todos os dias (mesmo nos dias que não lavo, uso o secador pra “dar um jeito”). Agora estou lavando dia sim, dois dias não. E o secador nem lembro a última vez que usei. Gloss então, não uso há mais de 1 mês. Desodorante e perfume também nem sei desde quando não passo. Ficar em casa nos permite essas “porquices”, que não atrapalham ninguém e ajudam a pele descansar.
Estamos passando por tempos difíceis. E vou descobrindo que a vida tem que ser assim mesmo, um dia após o outro. Logo eu, que sempre fui de fazer tantos planos com antecedência. E ai daquele compromisso que alguém teve que mudar de última hora! Agora não dá para saber como vai ser amanhã. Se minha filha vai estar boazinha ou chatinha. Se terei forças para brincar de algo diferente. Se terei ânimo de pensar (não fazer, porque aqui em casa quem faz é o marido) alguma refeição diferente. Se poderemos sair na rua… São tantos Se… Então começo a (tentar) pensar: vamos aproveitar da melhor forma possível.

E foco naquela história: reclamamos que não temos tempo pra ficar com os filhos… Reclamamos que ficamos muito tempo fora de casa, que daria tudo para ter mais tempo pra curtir nossa casa… Aí, quando somos obrigados a isso, reclamamos também. Então resolvi pegar esse limão e fazer uma limonada bem docinha!

As primeiras semanas foram de muita incerteza. Nunca deixei minha filha na TV por muito tempo. Evitava ao máximo. Então fizemos uma programação que incluía diversas atividades pra se mexer, pra cansar, pra aprender coisas novas, jogos divertidos, com o estoque de materiais que comprei na Kalunga quando soube que a escola ia fechar por tempo indeterminado… E fomos assim por uns bons dias: cabana na sala, no quarto, no sofá… circuito pela casa com fita crepe no chão, pufes e banquinhos como obstáculo… rolo de papel Kraft de 50m e canetinha pra desenhar à vontade…piscininha na varanda… brincadeira com guache (que durou só três vezes, porque a bichinha não queria saber de pintar o papel nem todas as mil sucatas que eu guardei, só mesmo a perna, o braço, o rosto…)… E o santo jogo do mico, que compramos tão despretensiosamente numa das últimas idas à loja de brinquedos do shopping, e salvou grande parte da quarentena, pelas inúmeras oportunidades: jogo da memória, encontrar o par, macho de um lado e fêmea de outro, aprender o nome dos animais em inglês… E lá se vai a criatividade. E a quarentena não termina. E não tem nem previsão.

Até que chega uma hora que não tenho mais força, disposição e criatividade. Uma tristeza, mas me rendo à TV. Então vamos utilizar a TV a nosso favor. Que tal um Just dance, assim pais e filha podem dançar juntas, fazer exercício, mexer o esqueleto e ainda dar risada. Foi uma boa sacada, mas, como qualquer coisa que você coloca pra uma criança de 2 anos e ela adora, fica no repeat por um tempo infinito. Aí só quer saber disso mesmo. Então já sabemos de cor: Waka Waka – This time for Africa, Opa Gangnanstyle, Livin’ la vida loca, Footloose, Happy, Uptown funk… Vamos sair um pouco de Just dance e escutar umas músicas diferentes. Coloco a elefantinha cantando em Sing. Pronto. Dez vezes por dia agora ouvindo a Tori Kelly… Vamos colocar um filme, já que ela acorda muito cedo e tudo bem ela ficar vendo TV enquanto a gente fica com o olho fechado por mais um tempo: Frozen, Moana, Shrek, Valente, Viva – A vida é uma festa… já vi mais de dez vezes cada um, com certeza.

A programação da noite, depois do banho, era desenhar o que foi de mais legal no dia. Não funcionou no primeiro dia. Nem no segundo. No terceiro, desisti. Infelizmente. Me parecia uma ideia tão legal! Mas a vontade das crianças é imprevisível.

Agora, adesivo funciona que é uma beleza. Pra compensar o que fez de bom, se ficou boazinha: um adesivo em cada mão. E ela sai exibindo pra todo mundo. Bom, todo mundo quem? Pra mãe e pro pai mesmo, quem não estava por perto no momento da conquista.

E quando ela quer fugir às regras estabelecidas (junto com ela, claro)? Aí é mais difícil ainda. Que teste de paciência, meu Deus. Então resolvemos aproveitar o momento também para educar. De uma forma difícil, ok, mas necessária. Bateu na mãe ou no pai? Fica no cantinho do castigo do quarto, chorando e berrando o quanto for necessário até entender por que está lá. Jogou as coisas? Fez birra sem motivo? Atrapalhou pai ou mãe no escritório no horário de trabalho? Cantinho do castigo. Tudo isso parece simples, fácil e até engraçado, falando agora. Mas no momento, meia hora, uma hora de gritaria é pra deixar qualquer um surtado. E olha que eu mantive a calma (sempre que possível), com o mesmo pensamento: vamos fazer do limão uma limonada bem docinha! A escola não pode (nem deve) ser a responsável por tudo, por esses ensinamentos que agora estamos (forçadamente) tendo a oportunidade de passar. E não é que funcionou? Depois de uns dias de gritaria, mas persistência dos pais, ela ficava 1 min sentada e vinha correndo, de cabeça baixa, abraçar, pedir desculpa e dizer que não ia fazer aquilo de novo. Mas ainda tinha dia que ficava muito chorona e manhosa.

Desde o começo da quarentena, minha casa tem cartazes colados em todas as paredes: o que pode, o que não pode, premiação de coração se foi boazinha, de X se foi mal-educada… Programação da semana pra não fugir da rotina. Me sinto um exemplo de mãe. Mas já na segunda semana, nada mais funciona. É um exercício diário, ou até horário, eu diria, de invenção, criatividade e força para lidar
com essa nova rotina. E nem por um minuto eu pensei que estava sendo ruim. Estava sendo difícil, ok, mas um aprendizado. Pra mim, pra ela, pro pai… E pra irmã que vai nascer logo e nem sabe ainda o mundo de pernas pro ar que a espera.

E ainda com tudo isso, somos felizes por termos a tecnologia a nosso favor. Como será que foi na época da gripe espanhola, em 1918? As pessoas ficavam realmente isoladas da família? Porque agora, por mais difícil que seja, temos o celular com câmera para falar com quem temos saudade. Avós, bisavós, tios, amigos… Conseguimos ver como estão. Mesmo ninguém conseguindo acompanhar o crescimento da minha barriga na vida real, conseguem acompanhar de algum jeito. E é uma mistura de sentimentos. Tem dia que nós estamos mais desanimados, cansados, esgotados com a situação e só de falar com alguém próximo, retomamos a força para continuar. Tem dia que estamos bem,
animados, sorrindo, e temos que dar força pra avós ou tios que estão em momento de desânimo. Já são 6 semanas sem contato nenhum com parentes. A não ser 5 minutos na frente do portão do prédio, sem abraço nem beijo, só para entregar uma coisa ou outra e dar um “oi”, ou seja, praticamente a mesma coisa que falar através de uma tela pequena de celular. Um contato frio. Mas ao menos um contato. E por mais que as pessoas pensem que eu não tenho sentimentos (e às vezes consigo ser bem fria mesmo), tem dias seguidos que choro sem parar, porque a vontade de ver as pessoas “no mundo real” é imensa.

No condomínio pelo menos tinha música todo dia. Eram músicas bem selecionadas: ora animadas, para agitar o pessoal, ora músicas com alguma letra que tenha a ver com o momento que estamos passando. A gente ficava na sacada, todo mundo aplaudia… Quinze minutos de diversão. Mas, como viver em sociedade não é fácil, começaram as reclamações. Difícil julgar o que cada um está passando, mas 10 ou 15 minutos de música às 18h, 19h da noite não deveria incomodar tanto, já que estava agradando a maioria, ao que parecia pela alegria nas sacadas. De qualquer forma, foi bom enquanto durou.

São tantos pensamentos que passam pela cabeça. Dependendo do estado de espírito, acho tudo lindo e vejo tudo como uma oportunidade de amadurecimento, de aproveitar os momentos em família… Dependendo do dia, começo a ver a vida dos outros e me sinto tão tonta em estar cumprindo as regras de isolamento. Muitas pessoas, inclusive próximas a nós, não mudaram absolutamente nada a vida. A criança continua ficando com os avós, continuam viajando no feriado, se deslocando pra cima e pra baixo. A rua cheia de gente passeando, fazendo exercício sem máscara, indo à feira, ao mercado, tudo lotado, sem nenhuma proteção, repassando o vírus pra quem aparecer na sua frente… E eu aqui, presa em casa, fazendo a minha parte para o vírus não se dissipar e podermos voltar logo à vida normal.

E os planos pra quando o “bichinho” for embora? Tantos!! Quero ver todo mundo, abraçar (ok, isso ainda vai demorar um pouco mais), ir na casa da bisa, ir ao shopping (peloamordedeus, preciso de um shopping), ir ao parque, viajar, comer em um restaurante, churrascaria, pizzaria, tomar café da manhã na padaria…

Não sei quando vou sair da quarentena. Mas tenho certeza que sairei outra pessoa. Valorizando cada profissional, cada pessoa ao meu redor, cada mãe com seu(s) filho(s), cada novo dia da vida, cada momento de liberdade…

Eu realmente espero que esse aprendizado dure pra vida inteira.

E como será o meu “antes e depois” da quarentena? O antes é fácil: eu era a Lila, Marília, 35 anos, casada, 1 filha de 2 anos, uma filha na barriga, mulher que sempre deu valor à família e aos amigos, que programava a vida antecipadamente, com tudo muito bem planejado, que sempre trabalhou duro para ter seus luxos.

O depois? Acho que Lulu Santos pode me ajudar: “Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. A vida vem em ondas como o mar. Num indo e vindo infinito. Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo. Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo agora. Há tanta vida lá fora, aqui dentro sempre, Como
uma onda no mar”. Um dos meus compositores preferidos, que consegue
escrever a trilha sonora da minha vida. Nessa música incrível, de 1983, até antes de eu nascer, parece que estava prevendo o ano de 2020!

Talvez daqui uns 5 anos eu consiga escrever um novo texto para responder como foi o meu depois da quarentena! Ou não. Só ler este e pensar: quanto aprendizado aqueles dias me deixaram para me tornar quem sou hoje!

 

Lila.



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